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Vírus da Encefalite Transmitida por Carraça

O vírus da encefalite transmitida por carraça (TBEV, pela sigla em inglês) é um vírus de RNA de cadeia simples e sentido positivo do género Flavivirus. A transmissão ocorre principalmente através de carraças Ixodes encontradas na Europa, na antiga União Soviética e na Ásia. O vírus causa uma encefalite transmitida por carraça. A maioria dos doentes são assintomáticos; no entanto, indivíduos sintomáticos podem apresentar uma doença bifásica. Após a apresentação com sintomas inespecíficos tais como febre, mal-estar e artralgias, os doentes podem desenvolver uma segunda fase de sintomas caraterizada por manifestações neurológicas, como meningite, encefalite ou meningoencefalite. O diagnóstico pode ser confirmado por serologia ou PCR. Tendo em conta que não existe um tratamento antivírico eficaz nas infeções por TBEV, o tratamento é de suporte.

Última atualização: Jul 8, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Classificação

Classificação do fluxograma de vírus de rna

Identificação do RNA vírico:
Os vírus podem ser classificados de várias formas. No entanto, a maioria destes tem um genoma constituído por ADN ou RNA. Os vírus cujo genoma é de RNA podem ser ainda caracterizados em RNA de cadeia simples ou dupla. Os vírus com invólucro são cobertos por uma fina camada de membrana celular (geralmente da célula hospedeira). Na ausência desta camada, são apelidados de vírus “nus”. Os vírus com genomas de cadeia simples são chamados de vírus de “sentido positivo” se o genoma puder ser diretamente utilizado como RNA mensageiro (mRNA, pela sigla em inglês), que é traduzido em proteínas. Os de “sentido negativo” necessitam da RNA polimerase dependente de RNA, uma enzima vírica, para transcrever o seu genoma em RNA mensageiro.

Imagem por Lecturio. Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Características Gerais e Epidemiologia

Características gerais do vírus da encefalite transmitida por carraça (TBEV, pela sigla em inglês)

  • Taxonomia:
    • Família: Flaviviridae
    • Género: Flavivirus
  • Vírus de RNA
    • Cadeia simples
    • Sentido positivo
    • Linear
  • Esférico
  • Simetria icosaédrica
  • Cápside com invólucro
  • Tamanho: aproximadamente 50 nm
Vírus da encefalite transmitida por carrapatos flaviviridae

Vírus da encefalite transmitida por carraça em diferentes pHs:
A: 8,0
B: 10,0
C: 5,4

Imagem : “TBEV at different pH levels” por Stiasni K. Licença: CC BY 2.5

Espécies clinicamente relevantes

A encefalite transmitida por carraça (TBE, pela sigla em inglês) é causada por 3 subtipos de vírus intimamente relacionados:

  • Europeu (Ocidental)
  • Siberiano
  • Russo (do Extremo Oriente)

Epidemiologia

A TBE é a infeção do SNC transmitida por carraça mais comum na Europa e na Ásia.

  • São notificados aproximadamente 10.000 a 15.000 casos anualmente
  • As infeções são mais comuns em regiões da:
    • Europa
    • Antiga União Soviética
    • Sibéria
    • Ásia
  • Sazonalidade dos casos
    • Abril a novembro
    • O pico do número de casos ocorre no verão devido à elevada atividade das carraças.
  • Geografia
    • Rara nas zonas urbanas
    • Mais comum em áreas arborizadas ou de erva alta
  • Mortalidade:
    • Rara na Europa: 1%–2%
    • Elevada na Ásia: 5%–20%

Patogénese

Reservatório

  • A carraça Ixodes atua como vetor e reservatório.
  • Os principais hospedeiros são os pequenos roedores.
  • Os seres humanos são hospedeiros acidentais.

Transmissão

  • Picadas da carraça Ixodes em áreas endémicas:
    • Ixodes ricinus (subtipo europeu)
    • I. persulcatus (subtipos da Sibéria e do Extremo Oriente)
  • Consumo de leite cru de animais infetados
    • Cabras
    • Ovelhas
    • Vacas
Ixodes ricinus flaviviridae vírus da encefalite transmitida por carrapatos

Carraça Ixodes ricinus adulta, o vetor para o subtipo europeu do vírus da encefalite transmitida por carraça

Imagem : “Soft tick, Ixodes Ricinus, on human skin” por Gabrielsen J. Licença: CC BY 3.0

Fatores de risco do hospedeiro

Atividades recreativas e ocupacionais ao ar livre em regiões endémicas podem aumentar o risco de adquirir TBEV:

  • Caça
  • Agricultura
  • Trabalho nas florestas
  • Campismo

Ciclo de replicação vírica

  1. O virião interage com recetores na superfície celular → endocitose
  2. ↓ pH no endossoma → fusão das membranas vírica e endossomal → desencapsulamento do vírus
  3. A síntese de proteínas víricas ocorre no retículo endoplasmático rugoso (ER, pela sigla em inglês).
  4. A replicação do genoma ocorre em invaginações do ER → os viriões são “re-empacotados” e “montados”.
  5. Os viriões maduros saem da célula.
Tick-borne encephalitis virus replication cycle within a cell

Ciclo de replicação do vírus da encefalite transmitida por carraça dentro de uma célula
ER: retículo endoplasmático

Imagem por Lecturio.

Fisiopatologia

  • Picada de carraça → o TBEV é transmitido pela saliva em poucos minutos
  • A infeção inicial tem como alvo as células de Langerhans e os macrófagos
  • A replicação do TBEV ocorre nas células dendríticas, a nível local → transportado para os gânglios locais
  • Dissemina-se para tecidos extra-neuronais:
    • Baço
    • Fígado
    • Medula óssea
  • Replicação contínua → viremia → fase inicial dos sintomas
  • Eventual disseminação para o cérebro (processo não compreendido) → inflamação → lesão neuronal → 2ª fase de sintomas neurológicos

Apresentação Clínica

A maioria dos doentes são assintomáticos. Indivíduos sintomáticos podem ter um curso bifásico.

  • Período de incubação: 7-14 dias após a picada da carraça
  • Fase de viremia inicial:
    • Febre
    • Mal-estar
    • Cefaleia
    • Artralgia
    • Mialgias
    • Náuseas
  • Intervalo assintomático
  • 2ª fase neurológica:
    • Meningite
    • Encefalite
    • Meningoencefalite
    • Mielite
    • Paralisia flácida aguda

Vídeos recomendados

Diagnóstico e Tratamento

Diagnóstico

Na avaliação diagnóstica podem ser utilizadas amostras sanguíneas ou de LCR:

  • Serologia (ELISA) para pesquisar a presença de anticorpos IgM
    • Aparecem 0-6 dias após o início da doença
    • Podem ser detetados se houver sintomas neurológicos
  • PCR para deteção do RNA vírico

Avaliação de apoio ao diagnóstico:

  • Estudos do LCR:
    • Pleocitose
      • Predominância neutrofílica (no início da doença)
      • Predominância linfocítica (mais tarde na doença)
    • Glicose normal
    • Proteínas normais ou ligeiramente ↑
  • Leucopenia
  • Trombocitopenia
  • Elevação das transaminases (raro)

Tratamento

Não há um tratamento farmacológico específico. Este é de suporte.

Prevenção

  • Utilização de repelente de insetos.
  • Utilização de roupas protetoras.
  • Pasteurizar o leite.
  • Está disponível uma vacina nas áreas endémicas (aprovada pela FDA nos Estados Unidos em 2021).

Comparação de Espécies Semelhantes de Flavivírus

Tabela: Características e doenças causadas por várias espécies de Flavivirus
Organismo Vírus da encefalite transmitida por carraça Vírus da encefalite Japonesa Vírus da encefalite de St. Louis Vírus do Nilo Ocidental
Características As características estruturais são quase idênticas.
Região
  • Europa
  • Sibéria
  • Ásia
  • Ásia
  • Pacífico Ocidental
América do Norte
  • África
  • Médio Oriente
  • Europa
  • Sul da Ásia
  • Austrália
  • América do Norte
Transmissão Carraça Mosquito Mosquito Mosquito
Clínica
  • A maioria dos doentes são assintomáticos.
  • Inicialmente com sintomas inespecíficos
  • Fase neurológica:
    • Meningite
    • Encefalite
    • Meningoencefalite
  • Doença febril inespecífica
  • Meningite
  • Encefalite
  • Paralisia flácida aguda
  • Síndrome de Guillain-Barré
  • A maioria dos doentes são assintomáticos.
  • Doença febril inespecífica
  • Meningite
  • Encefalite
  • Meningoencefalite
  • A maioria dos doentes são assintomáticos.
  • Febre do Nilo Ocidental
  • Doença neuroinvasiva:
    • Meningite
    • Encefalite
    • Paralisia flácida aguda
Diagnóstico
  • Serologia
  • PCR – reação em cadeia da polimerase
Serologia Serologia
  • Serologia
  • PCR – reação em cadeia da polimerase
Tratamento Suporte Suporte Suporte Suporte
Prevenção
  • Medidas para evitar picadas de carraças
  • Vacinação (nas áreas endémicas)
  • Medidas para evitar picadas de mosquitos
  • Vacinação
Medidas para evitar picadas de mosquitos Medidas para evitar picadas de mosquitos

Diagnóstico Diferencial

  • Meningite bacteriana: infeção aguda das meninges. Os doentes com meningite bacteriana apresentam cefaleia, febre, rigidez da nuca e uma rápida deterioração clínica. Para estabelecer o diagnóstico realiza-se uma punção lombar. Ao contrário da meningite vírica, a avaliação do LCR mostra geralmente um líquido turvo, baixa glicose e uma contagem alta de leucócitos com predominância neutrofílica. A coloração de Gram e a cultura determinam as bactérias causadoras. O tratamento inclui antibióticos e corticoides.
  • Doença de Lyme: infeção causada pela espiroqueta gram-negativa Borrelia burgdorferi, transmitida por carraças. A apresentação desta doença varia consoante o estadio da mesma e pode incluir o eritema migratório característico, que não é observado na TBE. Nas fases tardias, também são comuns as manifestações neurológicas, cardíacas, oculares e articulares. O diagnóstico baseia-se nos achados clínicos e exposição a carraças e é apoiado por testes serológicos. O tratamento é com antibioterapia.
  • Erliquiose e anaplasmose: infeções causadas por Ehrlichia chaffeensis e Anaplasmosis phagocytophilum, respectivamente, transmitidas por carraças. Os sintomas de erliquiose e anaplasmose incluem febre, cefaleia e mal-estar. Na doença grave pode ocorrer meningoencefalite. O diagnóstico é feito por PCR. O tratamento de ambas as doenças é com doxiciclina.
  • Babesiose: infeção transmitida por carraças causada por parasitas Babesia. Os doentes podem ser assintomáticos ou desenvolver febre, fadiga, mal-estar e artralgias. Doentes sem baço, imunocomprometidos e idosos têm risco de doença grave, que cursa com sintomas neurológicos, anemia hemolítica, trombocitopenia, hepatoesplenomegalia, insuficiência renal e morte. O diagnóstico é confirmado com um esfregaço de sangue periférico, teste serológico e PCR. O tratamento inclui antimicrobianos como atovaquona mais azitromicina.
  • Tularemia: infeção causada por Francisella tularensis. A apresentação da tularemia depende do tipo de exposição e pode incluir úlceras, sintomas sistémicos inespecíficos, doença ocular, linfadenite, pneumonia, mediastinite ou meningite. O diagnóstico é feito com culturas, serologia e PCR. Para o tratamento, utilizam-se antibióticos.

Referências:

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