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Trichinella/Triquinose

A triquinose é uma doença causada por uma infeção por Trichinella. O parasita mais frequentemente envolvido é Trichinella spiralis, que geralmente é encontrado em porcos e transmitido aos humanos através da ingestão de carne mal cozinhada. Uma vez ingerido, o parasita cresce e torna-se maduro dentro das paredes intestinais. O acasalamento ocorre na fase adulta e as larvas produzidas migram pela circulação sanguínea até ao músculo estriado. Os sintomas surgem durante a migração das larvas. Após o consumo de carne infetada, os pacientes podem manifestar sintomas gastrointestinais dentro de poucas semanas e mais tarde podem surgir sintomas sistémicos como febre, calafrios, mialgias e edema periorbitário. O diagnóstico pode ser obtido por teste serológico e confirmado pela presença de quistos ou larvas numa biópsia muscular. As infeções ligeiras são autolimitadas, mas a doença sistémica é tratada com fármacos antiparasitários e corticosteróides. A infeção pode ser prevenida através de técnicas de confeção e manipulação de carne adequadas.

Última atualização: 24 May, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Características Gerais

Características básicas do parasita Trichinella

  • Nemátodo intestinal e dos tecidos (morfologicamente cilíndrico)
  • Parasita intracelular
  • Doença associada: triquinose

Espécies clinicamente relevantes

  • Mais conhecida a nível mundial: Trichinella spiralis
  • Causas da triquinose:
    • Encapsulada/enquistada (dentro dos músculos do hospedeiro):
      • Trichinella britovi (Europa, Ásia e Norte e Oeste de África)
      • Trichinella murelli (América do Norte)
      • Trichinella nativa (Ártico)
      • Trichinella nelsoni (África Oriental)
    • Não encapsulada:
      • Trichinella papuae (Papua-Nova Guiné)
      • Trichinella pseudospiralis (mundialmente)
      • Trichinella zimbabwensis (Tanzânia)

Epidemiologia

  • Estima-se que ocorram 10.000 casos de triquinose por ano, a nível mundial.
  • Nos Estados Unidos da América:
    • 90 casos de 2008 a 2012
    • Diminuição do número de casos devido à melhoria das condições de suinicultura.
  • Elevada prevalência em:
    • China
    • ex-União Soviética
    • Roménia e outras zonas da Europa Central
    • Tailândia
    • México
    • Argentina
    • Bolívia

Fisiopatologia

Reservatórios e transmissão

  • Hospedeiros:
    • Trichinella spiralis: porcos/suínos
    • Outros animais: javalis, ursos, roedores, cavalos, alces
  • Transmissão: carne crua ou mal cozinhada (sobretudo carne de porco e urso) com larvas

Patogénese

  • As larvas enquistadas vivem dentro dos músculos estriados do animal hospedeiro (algumas espécies não se encontram enquistadas).
  • As larvas são ingeridas quando é consumida carne mal cozinhada.
  • Fase GI:
    • Após o contacto com o ácido gástrico e a pepsina, as larvas são libertadas dos quistos.
    • As larvas invadem a mucosa do intestino delgado onde se tornam adultas.
    • Segue-se o acasalamento; no intestino delgado, o tempo de vida dura aproximadamente 4 semanas.
  • Fase sistémica:
    • As fêmeas geram as larvas, que são libertadas na circulação.
    • As larvas migram para os músculos estriados.
    • A fase migratória pode demorar até 1 mês, altura em que surge a sintomatologia.
    • Músculos afetados:
      • Diafragma
      • Língua
      • Masseter
      • Intercostais
      • Músculos extra-oculares
    • Podem atingir o miocárdio e o cérebro e originar reação inflamatória cardíaca e cerebral.
    • A infiltração tecidual (por PMNs e eosinófilos) e o edema surgem à medida que as larvas formam quistos.
    • Depois de um período de meses segue-se a fase de calcificação, permanecendo nesse estado durante anos, apesar da sintomatologia atenuar após meses.
Ciclo de vida de trichinella spiralis

Ciclo de vida de Trichinella spiralis nos humanos:
Nos humanos, existem duas fases: a fase intestinal e a fase sistémica (as larvas entram na circulação e podem atingir o miocárdio e o cérebro, podendo levar a reações inflamatórias cardíacas e cerebrais).

Imagem por Lecturio.

Apresentação Clínica

  • Princípios gerais:
    • Período de incubação: 1-6 semanas
    • A gravidade dos sintomas depende da quantidade de larvas (dose infeciosa) consumida.
    • Duas fases: intestinal e sistémica
  • Fase intestinal:
    • 2-7 dias após a exposição
    • Pode ser assintomático
    • Dor abdominal (epigástrica)
    • Diarreia
    • Náuseas
    • Vómitos
  • Fase sistémica:
    • 1-2 semanas após a ingestão
    • Pode persistir até 8 semanas
    • Febre e calafrios
    • Edema periorbitário/ edema palpebral:
      • Proptose
      • Quemose
      • Conjuntivite
    • Mialgias:
      • Face
      • Tórax
    • Fraqueza muscular
    • Tosse seca
    • Hemorragias subungueais filiformes e/ou hemorragias retinianas
    • Rash/urticária petequial
    • Cefaleias
    • Hepatomegalia

Complicações

  • Miocardite:
    • A passagem transitória leva à infiltração de células inflamatórias.
    • As arritmias ameaçadoras de vida são a causa mais comum de morte.
  • Meningite/encefalite
  • Pulmonar:
    • Pneumonia bacteriana secundária
    • Miosite respiratória (envolve o diafragma)
  • Insuficiência renal
  • Doença tromboembólica

Diagnóstico

Testes de diagnóstico

  • Serologia:
    • Só detetável após 3 semanas de incubação
    • Técnicas utilizadas:
      • Western blotting
      • ELISA
      • Imunofluorescência indireta
      • Teste de Aglutinação de Partículas de Látex
  • Biópsia muscular:
    • Estabelece um diagnóstico definitivo, mas só é realizada nos casos em que os testes iniciais são inconclusivos.
    • É biopsado o tecido muscular sintomático.
    • A sua análise poderá identificar um quisto de Trichinella spiralis incorporado.
Quisto de trichinella spiralis

Quisto de Trichinella spiralis incorporado numa amostra de tecido muscular num caso de triquinose:
A triquinose é adquirida através da ingestão de carne com quistos (larvas enquistadas) do parasita, morfologicamente cilíndrico.

Imagem: “10180” pelo Dr. I. Kagan. Licença: Public Domain

Exames adicionais

  • Testes laboratoriais:
    • Hemograma:
      • Eosinofilia
      • Leucocitose
    • Perfil metabólico e testes musculares:
      • Hipocalemia
      • ↑ Creatina cinase
      • ↑ Transaminases
      • ↑ Lactato desidrogenase
      • ↑ Aldolase
  • Raio-x simples: calcificação intramuscular

Tratamento

Tratamento

  • Infeção ligeira: A maioria das infeções não apresenta complicações e são autolimitadas.
  • Nas infeções com afeção sistémica, o tratamento consiste em:
    • Fármacos antiparasitários:
      • Albendazole
      • Mebendazol
    • Corticosteróides (sobretudo nas complicações graves)
  • Prevenção:
    • Cozinhar carne a temperaturas até 77°C
    • Congelar carne a -15°C (não aplicável às espécies do Ártico)
    • Manipulação adequada da carne
    • A profilaxia pós-exposição com mebendazol pode ser eficaz se administrada no prazo de 6 dias após exposição.

Prognóstico

  • Auto-limitado
  • Recuperação completa dentro de 2-6 meses
  • Aumento da morbilidade com o envolvimento cardíaco ou do SNC

Diagnóstico Diferencial

  • Gastroenterite: a fase intestinal da triquinose pode ser confundida com uma intoxicação alimentar, devido aos sintomas GI constitucionais: As causas virais e bacterianas da gastroenterite devem ser consideradas e descartadas através da história clínica, exame objetivo e análise das fezes.
  • Miopatias: Doenças autoimunes como a polimiosite ou a dermatomiosite manifestam-se com mialgias e sinais e sintomas típicos de vasculite, assim como na triquinose. Geralmente, nestes casos, estão envolvidos os grupos musculares proximais, ao contrário do que acontece na triquinose. A investigação de autoanticorpos específicos, tais como anticorpos anti-SRP e anti-Mi2 apoiam o diagnóstico. O tratamento inclui habitualmente imunossupressores e glucocorticóides.
  • Ascaridiose: infeção causada pelo parasita Ascaris lumbricoides: A transmissão ocorre através da ingestão de água ou alimentos contaminados. A maioria dos doentes são assintomáticos. Se os sintomas estiverem presentes podem ser ligeiros, com apenas desconforto abdominal, ou graves, provocando obstrução intestinal. Outros sintomas, como a tosse, apresentam-se devido à migração das larvas pelo corpo.
  • Infeção por ancilóstomo: causada pelos helmintas Necator americanus e Ancylostoma duodenale: Os pacientes manifestam anemia ferropénica e má progressão estaturo-ponderal. O diagnóstico é obtido através de pesquisa de larvas e ovos nas fezes humanas.
  • Estrongiloidíase: doença causada pelo nemátodo Strongyloides. A estrongiloidíase apresenta várias manifestações clínicas, incluindo sintomas GI e eosinofilia. O diagnóstico é feito através de serologia.

Referências

  1. Gottstein, B., Pozio, E., Nöckler, K. (2009). Epidemiology, diagnosis, treatment, and control of trichinellosis. Clin Microbiol Rev 22(1):127-145. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19136437/
  2. Faber, M., et al. (2015). Outbreak of trichinellosis due to wild boar meat and evaluation of the effectiveness of post exposure prophylaxis, Germany, 2013. Clin Infect Dis 60(12):e98–e104. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25770171/
  3. Rawla, P., Sharma, S. (2020). Trichinella spiralis. StatPearls. Retrieved April 2, 2021, from https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK538511/
  4. Riedel, S., et al. (Eds.). (2019). Medical parasitology. Jawetz, Melnick, & Adelberg’s Medical Microbiology, 28th ed. McGraw-Hill.
  5. Taher, E.E., et al. (2017). Modified dot-ELISA for diagnosis of human trichinellosis. Exp Parasitol 177:40-46. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28438521/
  6. Weller, P., Leder, K. (2020). Trichinellosis. UpToDate. Retrieved April 2, 2021, from https://www.uptodate.com/contents/trichinellosis

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