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Infeções por Clamídia

As infeções por clamídia são um grupo de doenças infecciosas causadas por bactérias pertencentes à família Chlamydiaceae. As 3 espécies que podem infetar humanos são a Chlamydia trachomatis, C. pneumoniae e C. psittaci. A infeção mais comum é uma IST causada por C. trachomatis, que acomete o trato geniturinário. A clamídia é a infeção bacteriana sexualmente transmissível mais comum nos Estados Unidos. As outras espécies de Chlamydia causam sobretudo infeções respiratórias. O diagnóstico baseia-se em testes de amplificação dos ácidos nucleicos. O tratamento é com antibióticos. Infeções por clamídia não tratadas podem ter consequências graves, incluindo infertilidade, gravidez ectópica, abortos espontâneos e doença inflamatória pélvica crónica.

Última atualização: 18 Apr, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Descrição Geral

Definição

As infeções por clamídia são doenças infecciosas causadas por bactérias pertencentes à família Chlamydiaceae.

Epidemiologia

  • Chlamydia trachomatis:
    • Afeta mais frequentemente os jovens adultos (15-22 anos)
    • A clamídia é a DST bacteriana mais comum nos Estados Unidos.
    • 30%–50% de todos os casos de infertilidade são causados por clamídia.
    • 90% de todos os casos de infertilidade decorrentes da obstrução das trompas de Falópio resultam de infeções por clamídia.
    • 2%–3% das mulheres grávidas estão colonizadas com C. trachomatis (a taxa de transmissão para o lactente é de 50%).
    • Tracoma (clamídia oftálmica):
      • Ocorre quase que exclusivamente nos países tropicais, em indivíduos que vivem com condições precárias de higiene
      • Depois das cataratas, o tracoma é a segunda causa mais comum de cegueira no mundo.
  • C. psittaci:
    • Responsável por 1% dos casos de pneumonia adquirida na comunidade
    • Os pássaros são o principal reservatório.
    • Grupos de risco:
      • Donos de pássaros
      • Criadores de animais e veterinários
      • Trabalhadores em lojas de animais, aviários e matadouros
    • A transmissão de humano para humano é rara.
  • C. pneumoniae:
    • A distribuição etária é bimodal: 3-6 anos e 60-80 anos
    • A C. pneumoniae é uma causa muito comum de infeções respiratórias em todo o mundo.
    • A prevalência de seropositividade é de 50% aos 20 anos e 70%–80% aos 60 anos.

Transmissão

  • C. trachomatis:
    • Via sexo vaginal, anal ou oral, ou por contacto direto com tecidos infetados, como a conjuntiva
    • De uma mãe infetada para o recém-nascido durante o parto vaginal
    • Serovars a–c: secreções oculares infecciosas, mãos contaminadas, toalhas (infeção por contacto), moscas
    • Serovars d–k: sexualmente transmissível, perinatal
    • Serovars l1-l3: sexualmente transmissível, causa linfogranuloma venéreo
    • O período de incubação é de 1 a 3 semanas.
  • C. psittaci:
    • O único patogénio humano zoonótico da família Chlamydiaceae
    • Origina-se principalmente dos pássaros (galinhas, patos, pombos, pássaros exóticos)
    • Infeção por contacto direto ou inalação de partículas de poeira ou fezes
    • Os patogénios são parcialmente infecciosos, mesmo após serem deixados ao ar por até 4 semanas.
    • O período de incubação é de 1 a 4 semanas.
  • C. pneumoniae:
    • Transmitida de pessoa para pessoa através de gotículas respiratórias, partículas aerossolizadas e fómites
    • O período de incubação é de 1 a 4 semanas.
    • A C. pneumoniae persiste por muito tempo no trato respiratório superior.
    • Os indivíduos atingidos podem infetar outros durante um longo período de tempo.

Fisiopatologia e Apresentação Clínica

Fisiopatologia

  • A Chlamydia é uma bactéria intracelular obrigatória.
  • Classificada como uma bactéria gram-negativa, mas apresenta uma pobre coloração com o Gram
  • Existe em 2 formas: corpos elementares (metabolicamente inativos) e corpos reticulados
  • Os corpos elementares invadem a célula hospedeira por endocitose.
  • Dentro da célula, os corpos elementares convertem-se em corpos reticulados metabolicamente ativos.
  • Os corpos reticulados replicam-se dentro da célula hospedeira através de fissão.
  • Após a replicação, os corpos reticulados reorganizam-se em corpos elementares e são libertados da célula.
  • Os aglomerados de corpos reticulados em replicação são conhecidos como corpos de inclusão.
  • A C. trachomatis possui múltiplos serovars com diferentes manifestações clínicas.

Infeções por C. trachomatis

Doença genital (serovars d–k):

  • Mulheres:
    • Febre
    • Uretrite:
      • Disúria
      • Polaquiúria
      • Piúria
    • Vaginite: corrimento vaginal anormal
    • Cervicite/salpingite:
      • Dispareunia
      • Dor abdominal
    • Doença inflamatória pélvica (DIP):
      • Dor pélvica crónica
      • Dificuldade em engravidar
      • Gravidez ectópica (tubária)
  • Homens:
    • Sensação de dor ou ardência ao urinar
    • Corrimento peniano anormal
    • Dor ou tumefação testicular
    • Febre
    • Epididimite
    • Proctite

Doença infantil:

  • A infeção materna pode provocar um aborto espontâneo e parto prematuro.
  • A transmissão para os lactentes ocorre durante a passagem pelo canal de parto.
  • Conjuntivite (taxa de transmissão de 50% na presença de infeção materna):
    • Normalmente ocorre 1 semana após o nascimento
    • Inflamação purulenta, mucopurulenta e hemorrágica da conjuntiva
    • Edema da pálpebra
    • Infiltração folicular da pálpebra interna
    • Ocorre num olho e depois no outro
    • Resolve predominantemente sem complicações
  • Pneumonia:
    • Taquipneia
    • ↑ Esforço respiratório
    • Roncos com a respiração
    • Recusa alimentar
    • Cianose nos casos graves
  • Complicações pós-infecciosas:
    • Mais comum em homens jovens
    • Seguem-se a uma DST
    • De origem autoimune
    • Artrite reativa
    • Tríade de artrite reativa (RAT, pela sigla em inglês):
      • Uretrite
      • Conjuntivite
      • Artrite

Doença ocular (serovars a–c):

  • Estadio inicial (tracoma ativo):
    • Conjuntivite
    • Vermelhidão, fotossensibilidade, secreção mucopurulenta
  • Estadio tardio (tracoma cicatricial):
    • Cicatrizes conjuntivais
    • Infeções repetidas levam a cicatrizes nas pálpebras, entrópio e, eventualmente, danos na córnea e cegueira.

Linfogranuloma venéreo (serovars l1-l3):

  • Infeção sexualmente transmissível por C. trachomatis dos gânglios e vasos linfáticos
  • Apresenta-se como uma úlcera genital, bem como tumefação e dor nos gânglios da virilha (geralmente unilaterais)
  • Pode causar inflamação retal, febre ou tumefações ganglionares noutras partes do corpo

Doenças respiratórias causadas por C. pneumoniae e C. psittaci

  • As infeções por C. pneumoniae são frequentemente assintomáticas, mas podem apresentar-se como:
    • Faringite
    • Sinusite
    • Bronquite
    • Pneumonia
    • Todos os sintomas de infeções por C. psittaci podem também ocorrer em infeções por C. pneumoniae.
  • As infeções agudas por C. psittaci são mais sintomáticas:
    • Pneumonia atípica e intersticial
    • Tosse seca, persistente e não produtiva
    • Manifestações extrapulmonares:
      • Febre/arrepios
      • Cefaleias
      • Fotofobia
      • Mialgia
      • Hepatoesplenomegalia: 70% dos doentes
      • Miocardite
      • Encefalite
      • Exantema

Diagnóstico

História clínica:

  • Infeções genitais:
    • Idade jovem
    • Sexualmente ativo com vários parceiros
    • Sintomas urogenitais
    • Dor abdominal/pélvica, febre
  • Tracoma:
    • Contacto com pessoas infetadas
    • Indivíduos residentes em áreas endémicas
  • Doença respiratória:
    • Exposição a pássaros
    • Exposição a pessoas infetadas

Exame objetivo:

  • Infeções genitais:
    • Dor na parte inferior do abdómen
    • Movimentação cervical dolorosa durante o exame pélvico
    • Corrimento vaginal ou peniano
    • Adenopatia inguinal, lesões genitais (linfogranuloma venéreo)
  • Tracoma: exame oftalmológico
  • Doença respiratória:
    • Faringite/sinusite
    • Sibilos, crepitações, diminuição do murmúrio vesicular

Avaliação laboratorial:

  • Teste de amplificação do ácido nucleico (gold standard):
    • Pode ser utilizado em diferentes amostras:
      • Zaragatoa cervical ou vaginal (mulheres), zaragatoa uretral (homens)
      • Amostras de urina por colheita assética
      • Zaragatoa nasofaríngea, expectoração ou lavado broncoalveolar
    • Amplificação de sequências de ADN ou ARN bacteriano utilizando:
      • PCR
      • Amplificação Mediada por Transcrição (TMA, pela sigla em inglês)
      • Amplificação por deslocamento de fita de ADN (SDA, pela sigla em inglês)
      • Reação em cadeia da ligase (LCR, pela sigla em inglês)
    • Muito específico para diferenciar infeções por clamídia de infeções gonocócicas
  • Testes serológicos:
    • Mais úteis nas infeções crónicas
    • Não são frequentemente realizados
  • Testes de antigéneo:
    • Imunoensaio enzimático
    • Requer zaragatoas invasivas (cervicais ou uretrais)
  • Cultura:
    • A Chlamydia requer uma cultura de tecidos para crescer
    • Difícil: requer experiência, sobretudo reservada para fins de investigação
  • Sonda genética:
    • Requer zaragatoas invasivas (cervicais ou uretrais)
    • Menos sensível que o teste de amplificação do ácido nucleico
    • Mais barato que o teste de amplificação do ácido nucleico

Tratamento e Complicações

Infeções genitais

Abordagem geral:

  • O tratamento é com antibióticos.
  • Todos os indivíduos expostos devem ser tratados de forma a prevenir complicações, independentemente da presença ou não de sintomas.
  • Devem ser realizados exames para outras DSTs.
  • Tratamento de uma infeção gonocócica concomitante, se apropriado
  • Testar a presença de VIH, se o estado for desconhecido
  • Os parceiros sexuais devem ser tratados.
  • Abstinência durante 1 semana após a conclusão do tratamento
  • Re-testar 3 meses após o tratamento para descartar infeção recorrente
  • Reavaliação se sintomas persistentes ou recorrentes

Antibióticos:

  • Infeções genitais não complicadas (cervicite/uretrite):
    • 1ª linha: doxiciclina (7 dias) ou azitromicina (dose única)
    • 2ª linha: quinolonas durante 7 dias
  • Proctite: doxiciclina + dose única de ceftriaxona
  • Epididimite: ceftriaxona + doxiciclina durante 10 dias
  • DIP: cobertura ampla com doxiciclina
  • Mulheres grávidas:
    • Azitromicina: dose única
    • Alternativas: eritromicina ou amoxicilina
  • Lactentes:
    • A eritromicina oral é preferida na conjuntivite e pneumonia
    • Alternativa: azitromicina
    • A profilaxia neonatal de rotina para a conjuntivite gonocócica não é eficaz contra a Chlamydia.

Outras infeções

Tracoma:

  • Terapêutica baseada na comunidade em vez de tratamento individual, devido às altas taxas de transmissão
  • Terapêutica de 1ª linha: dose única de azitromicina oral
  • A tetraciclina tópica pode ser utilizada quando a azitromicina oral não está disponível.

Pneumonia :

  • Tratamento empírico:
    • Antes do patogénio causador ser definitivamente estabelecido
    • Inclui macrólidos, quinolonas e doxiciclina
  • Terapêutica dirigida:
    • Doxiciclina (7-10 dias): tratamento de 1ª linha para infeções por C. psittaci
  • Azitromicina (5 dias): tratamento de 1ª linha para infeções por C. pneumoniae
Resumo das possíveis complicações nas infeções por Chlamydia
C. trachomatis C. psittaci C. pneumoniae
  • Artrite reativa
  • Infertilidade
  • DIP
  • Gravidez ectópica
  • Epididimite
  • Prostatite
  • Miocardite
  • Pericardite
  • Endocardite
  • Tromboflebite
  • Envolvimento do SNC
  • Cardite
  • Meningorradiculite
  • Eritema nodoso
  • Artrite reativa
Doença inflamatória pélvica (DIP), sistema nervoso central (SNC)

Diagnóstico Diferencial

  • Gonorreia: uma DST causada por Neisseria gonorrhoeae que se apresenta com cervicite, uretrite e proctite, coexistindo frequentemente com uma infeção por clamídia. A gonorreia pode ser diagnosticada com base no teste de amplificação do ácido nucleico ou cultura. O tratamento é feito com antibióticos.
  • Herpes: As infeções por herpes genital são uma DST comum causada pelo HSV tipo 1 ou 2. A infeção primária apresenta-se geralmente com sintomas prodrómicos, seguidos por aglomerados de vesículas dolorosas e cheias de líquido numa base eritematosa. A disúria e adenopatia dolorosa são outras manifestações. As infeções por herpes permanecem latentes nos gânglios nervosos, o que permite infeções recorrentes. O tratamento é com terapêutica antivírica.
  • Sífilis : uma infeção bacteriana geralmente disseminada por contacto sexual. A sífilis começa como uma ferida indolor nos genitais, reto ou boca. O modo de transmissão é através da pele ou contacto das mucosas lesionadas. O organismo causador pode permanecer adormecido no corpo antes de se reativar em determinados momentos. O tratamento é com penicilina por via injetável. Se não for tratada, a sífilis pode danificar órgãos internos e levar à morte.
  • Verrugas genitais: uma manifestação da infeção pelo papilomavírus humano (HPV, pela sigla em inglês), comum em adolescentes, e que se apresenta com verrugas na área genital. O diagnóstico pode ser feito clinicamente. As verrugas podem ser tratadas com excisão cirúrgica ou ablação local. O HPV tem sido associado ao cancro do colo do útero; portanto, a prevenção é muito importante.
  • Pneumonia adquirida na comunidade: infeção bacteriana ou vírica do parênquima pulmonar. A pneumonia adquirida na comunidade pode ser causada por vários organismos e apresenta sintomas constitucionais e respiratórios semelhantes à pneumonia por clamídia. O diagnóstico é geralmente estabelecido através de culturas da expetoração. Os antibióticos são a base da terapêutica.

Referências

  1. Hammerschlag, M. R. (2019). Pneumonia caused by Chlamydia pneumoniae in adults. Retrieved February 1, 2021, from https://www.uptodate.com/contents/pneumonia-caused-by-chlamydia-pneumoniae-in-adults
  2. Hsu, K. (2020). Clinical manifestations and diagnosis of Chlamydia trachomatis infections. Retrieved January 20, 2021, from https://www.uptodate.com/contents/clinical-manifestations-and-diagnosis-of-chlamydia-trachomatis-infections
  3. Hsu, K. (2020). Treatment of Chlamydia trachomatis infection. Retrieved January 20, 2021, from https://www.uptodate.com/contents/treatment-of-chlamydia-trachomatis-infection
  4. Richards, M.J. (2020). Psittacosis. Retrieved February 1, 2021, from https://www.uptodate.com/contents/psittacosis
  5. Stamm, W.E. Chlamydia trachomatis infections of the adult. In: Sexually Transmitted Diseases, 4th Edition, Holmes K.K., Sparling P.F., Mardh P.A., et al. (Eds), McGraw-Hill, New York 2008. P.575.
  6. Quinn, T.C., Gaydos C.A. (2015). Treatment for Chlamydia infection–doxycycline versus azithromycin. N Engl J Med; 373:2573.

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