Infeções por Ancilóstomos

As infeções intestinais por ancilóstomos, que afetam os humanos, são provocadas principalmente por Necator americanus e por Ancylostoma duodenale. São infetadas milhões de pessoas em todo o mundo, sobretudo em regiões tropicais, onde ambientes quentes e húmidos facilitam a sobrevivência das larvas no solo. A transmissão ocorre através da penetração percutânea das larvas. O parasita chega à traqueia e faringe, através da sua migração transpulmonar, onde é deglutido. No intestino delgado, as larvas sofrem maturação e fixam-se ao duodeno. Sintomas GI como diarreia, náuseas e vómitos fazem parte das manifestações. A perda sanguínea (que leva à anemia) e subsequente desnutrição são possíveis complicações. O diagnóstico é obtido por PCR e microscopia das fezes, que deteta os ovos do ancilóstomo. O tratamento foca-se na prevenção através de medidas de saneamento adequadas e desparasitação regular dos grupos de alto risco. O tratamento envolve o uso de fármacos antiparasitários, associados a suplementos de ferro para a anemia.

Última atualização: Sep 29, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Descrição Geral

Características gerais

  • Ancilóstomos:
    • Comprimento médio do parasita adulto: 10 mm
    • A cabeça é frequentemente curvada na direção oposta ao corpo: aparência de um gancho.
    • Os parasitas machos têm uma bolsa copuladora única, em vez da cauda curva e pontiaguda vista noutros nematódos intestinais.
  • As principais espécies de ancilóstomos que causam infeções humanas são:
    • Ancylostoma duodenale:
      • 4 estruturas tipo dente afiado
      • Tempo de vida: 1 ano
    • Necator americanus (ancilóstomo do Novo Mundo):
      • Placas de corte dorsal e ventral
      • Tempo de vida: 3-5 anos
  • Outras espécies:
    • A. ceylanicum:
      • Infeta cães e gatos
      • Causa de infeções zoonóticas nas regiões da Ásia e do Pacífico Sul
    • A. caninum
    • A. braziliense

Epidemiologia

  • Todos os anos, são infetadas por ancilóstomos aproximadamente 500 milhões de pessoas em todo o mundo.
  • N. americanus é um agente infecioso em todo o mundo.
  • A. duodenale é normalmente encontrado em:
    • Região Mediterrânica
    • Norte da Índia
    • China
  • Predileção por climas tropicais

Fatores de risco para o hospedeiro

  • Crianças
  • Gravidez
  • Baixo estatuto socioeconómico
  • Andar descalço
  • Condições precárias de saneamento
  • Pobre higiene pessoal

Patogénese

Reservatórios e transmissão

  • Reservatórios:
    • A. duodenale e N. americanus: humanos
    • A. ceylanicum: cães e gatos
    • A. caninum: cães
  • Formas de transmissão:
    • Penetração direta da pele
    • Ingestão de larvas (e.g., consumo de água contaminada)
  • Fatores que facilitam a transmissão:
    • Contaminação fecal do solo
    • Ambiente húmido, quente e sombrio, no qual as larvas sobrevivem.
    • Contacto com a pele humana

Ciclo de vida

  • Ambiente externo:
    • Os ovos de ancilóstomo contaminam o solo.
    • Os ovos eclodem em solo húmido → larvas rabditiformes (vivem por 3-4 semanas) → desenvolvem-se em larvas filariformes (podem penetrar na pele)
  • Humanos:
    • As larvas penetram na pele (geralmente nos pés) e entram na circulação sanguínea.
    • Passam no lado direito do coração → vasos pulmonares → alvéolos → árvore brônquica → traqueia → faringe → são engolidas até chegarem ao intestino
    • Fixam-se à mucosa duodenal → maturação em parasita adulto
    • Fémeas adultas → depositam até 30.000 ovos por dia → eliminados nas fezes

Evolução da doença

  • Penetração cutânea e migração por enzimas proteolíticas:
    • N. americanus → protease → quebra a elastina e o colágenio
    • A. duodenale→ Proteínas secretadas pelo ancilóstomo (desenvolvimento do parasita) + enzima hialuronidase (quebra da integridade dérmica)
    • A penetração leva a irritação cutânea.
  • Passagem transpulmonar: pode originar sintomas respiratórios, incluindo irritação faríngea/vias aéreas e inflamação eosinofílica.
  • Fixação duodenal e consumo de sangue:
    • Dentes ou placas de corte na cápsula bucal → prende-se à mucosa intestinal do hospedeiro
    • A metaloprotease e os peptídeos anticoagulantes (inibição do fator X ativado e do fator VIIa/fator tecidual) intervêm na digestão do sangue.
    • Consumo de sangue por vermes e perda de sangue:
      • Conduz a anemia (perda de sangue) e hipoalbuminemia/malnutrição (perda de albumina)
      • O consumo de sangue por N. americanus é ligeiramente menos do que por A. duodenale (na literatura há uma variação significativa nas quantidades exatas).
  • Imunossupressão:
    • Parasitas inibidores da protease → neutralizam as enzimas proteolíticas do hospedeiro e diminuem a absorção nutricional do hospedeiro
    • O parasita induz apoptose de linfócitos T → Hiporesponsividade das células T

Apresentação Clínica

Penetração cutânea

  • No momento da penetração → reação localizada (“ground itch”)
    • Muitas vezes afeta a área entre os dedos dos pés
    • Resolve em poucos dias
  • Larva migrans cutânea s: pápula eritematosa → padrão serpiginoso característico (túneis sob a pele)

Fase Pulmonar

  • Sintomas:
    • Pode ser assintomático
    • Tosse ou esternutos
    • Bronquite
    • Hemoptises
    • Síndrome de Loeffler: pneumonia eosinofílica
  • Normalmente autolimitado

Fase Gastrointestinal

  • Dor ou cólica abdominal
  • Náuseas, vómitos, diarreia
  • Flatulência
  • Hemorragia GI em casos graves (melenas ou sangue oculto nas fezes)

Défices nutricionais

  • Má progressão estaturo-ponderal (desenvolvimento mental e físico das crianças afetado)
  • Anemia ferropénica (dependente da carga de parasitas)
  • Edema/anasarca (devido à hipoalbuminemia)
  • Infeção crónica em mulheres grávidas: baixo peso ao nascer

Diagnóstico e Tratamento

Diagnóstico

  • Microscopia das fezes:
    • Deteta os ovos.
    • Os ovos fecais são detetáveis cerca de 8 semanas (na infeção N. americanus ) e até 38 semanas (na infeção A. duodenale) após a penetração cutânea.
    • A análise das fezes não é útil antes da fase GI.
  • PCR das fezes
  • Hemograma:
    • Eosinofilia: achado importante sugestivo de infeção parasitária
    • Anemia microcítica (por deficiência de ferro)
    • Hipoalbumina
Ovo de ancilóstomo

As características diagnósticas dos ovos de ancilóstomo são a casca fina com forma oval ou elipsoidal.

Imagem: “4825” por CDC. Licença: Public Domain

Tratamento

Tratamento médico:

  • Terapêutica antiparasitária:
    • Mebendazol (dose múltipla)
    • Albendazol (dose única)
    • Pamoato de pirantel
  • Anemia
    • Suplementos de ferro (especialmente para mulheres grávidas ou a amamentar)
    • Transfusão de sangue quando indicada
  • Suporte Nutricional

Prevenção:

  • Fundamental, uma vez que a reinfeção é comum
  • Medidas de higiene (manipulação adequada de alimentos, água potável limpa, lavagem das mãos)
  • Utilização de calçado apropriado
  • Eliminação sanitária das fezes humanas
  • Desparasitação regular dos grupos de alto risco

Diagnósticos Diferenciais

  • Má-absorção: Incapacidade em absorver os nutrientes de forma adequada no intestino delgado. As manifestações incluem perda de peso, diarreia, fraqueza muscular, anemia e fadiga. As infeções por ancilóstomos causam má absorção, geralmente cursando com deficiências nutricionais devido à falta de ferro e proteínas. Devem ser consideradas outras doenças associadas a má absorção, tais como a doença celíaca e a doença inflamatória intestinal. A exclusão de outras causas é importante, uma vez que o tratamento é específico para a causa subjacente.
  • Ascaris: infeção causada pelo parasita Ascaris lumbricoides. A transmissão ocorre através da ingestão de água ou alimentos contaminados. A maioria dos pacientes são assintomáticos. Se os sintomas estiverem presentes podem ser ligeiros, com apenas desconforto abdominal, ou graves, provocando obstrução intestinal. Outros sintomas, como a tosse, são resultantes da migração dos parasitas pelo corpo.
  • Trichinelose: infeção por Trichinella, geralmente devido a T. spiralis (espécie encontrada em porcos). É transmitida aos humanos através da ingestão de carne mal cozinhada. Uma vez ingerido, o parasita migra até ao intestino. Os pacientes podem manifestar sintomas GI semelhantes aos das infeções por ancilóstomos. As larvas atingem os músculos estriados através da sua disseminação pela circulação sanguínea. Os sintomas sistémicos incluem febre, calafrios, mialgias e edema periorbitário. O diagnóstico é feito por exame serológico e confirmado por biópsia muscular. A doença sistémica é tratada com fármacos antiparasitários e corticosteróides.
  • Estrongiloidíase: doença provocada pelo nemátodo Strongyloides. A estrongiloidíase apresenta várias manifestações clínicas, que incluem sintomas GI e eosinofilia. O diagnóstico é feito através de serologia.

Referências

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