Glândulas Suprarrenais: Anatomia

As glândulas suprarrenais são um par de glândulas endócrinas retroperitoneais, localizadas acima dos rins. O parênquima externo é denominado córtex adrenal e possui 3 zonas distintas, cada uma com os seus próprios produtos de secreção. A zona glomerulosa externa secreta mineralocorticoides (principalmente aldosterona); a zona fasciculada média secreta glicocorticoides (principalmente cortisol); e a zona reticular mais interna secreta androgénios. Inferiormente ao córtex situa-se a medula da suprarrenal, que secreta catecolaminas envolvidas na resposta de luta ou fuga. As células medulares funcionam mais como neurónios pós-sinápticos neurossecretores do que como células endócrinas tradicionais. As glândulas suprarrenais têm um suprimento vascular rico e relações complexas com os órgãos circundantes.

Última atualização: Oct 5, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Descrição Geral

Localização

Existem 2 glândulas suprarrenais no corpo e cada glândula está em estreita associação com um rim. As glândulas suprarrenais são:

  • Estruturas retroperitoneais
  • Localizadas na face superomedial de cada rim
  • Dentro da fáscia renal e gordura perirrenal
  • Separadas dos rins por um tecido fibroso
Glândula adrenal

Glândula suprarrenal localizada na face medial superior de cada rim

Imagem por Lecturio.

Fronteiras/relações anatómicas

  • Inferiormente a ambas as glândulas localiza-se o rim.
  • Glândula suprarrenal direita:
    • Anteromedial: veia cava inferior
    • Lateral: fígado
    • Posterior: diafragma
  • Glândula suprarrenal esquerda:
    • Anteriormente:
      • Cauda do pâncreas
      • Baço
      • Estômago
    • Medialmente: aorta abdominal
    • Inferiormente: veia e artéria esplénica
    • Posterior: diafragma

Desenvolvimento

  • Córtex adrenal:
    • Deriva da mesoderme
    • O córtex fetal primitivo desenvolve-se a partir das células mesoteliais na parede dorsal do celoma primitivo.
    • Córtex fetal:
      • Produz esteroides ativamente durante a gestação
      • Involui após o nascimento
    • O córtex definitivo (com zonas corticais maduras) desenvolve-se lentamente após o nascimento.
  • Medula adrenal:
    • Derivada das células da crista neural (neuroectoderme)
    • Migra para a porção medial da glândula em desenvolvimento → encapsulada pelo córtex em desenvolvimento
  • Mudanças de tamanho:
    • Ao nascimento: A glândula suprarrenal tem ⅓ do tamanho do rim.
    • Idade adulta: A glândula suprarrenal tem 1/30 do tamanho do rim.

Anatomia Geral

Estrutura geral

As glândulas suprarrenais são compostas por 2 camadas funcionalmente distintas: o córtex adrenal e a medula adrenal. Cada camada tem as suas próprias origens embriológicas, a sua própria anatomia, histologia e funções.

  • Direita: forma triangular
  • Esquerda: forma semilunar

Córtex da suprarrenal

  • Porção externa da glândula
  • Compõe 80%‒90% do volume da glândula
  • Mais gordura → cor amarela
  • Consistência firme
  • Superfície granular fina

Medula da suprarrenal

  • Porção central da glândula
  • Apenas cerca de 10%‒20% do volume da glândula
  • De cor castanho-avermelhada

Anatomia Microscópica

Córtex da suprarrenal

O córtex adrenal tem 3 zonas distintas e cada zona tem a sua própria regulação e produtos de secreção. Estas 3 zonas (de externa para interna) são:

  • Zona glomerulosa:
    • Secreta mineralocorticoides (principalmente aldosterona)
    • As células estão dispostas em aglomerados circulares.
  • Zona fasciculada:
    • Secreta glicocorticoides (principalmente cortisol)
    • As células estão organizadas em colunas.
  • Zona reticular:
    • Secreta androgénios (e.g., dehidroepiandrosterona (DHEA, pela sigla em inglês) e androstenediona)
    • As células apresentam um arranjo reticular.

Medula da suprarrenal

  • As células dentro da medula são neurónios simpáticos pós-ganglionares modificados que formam sinapses com fibras nervosas simpáticas pré-ganglionares.
  • Composta por células cromafins:
    • Células “pós-sinápticas” neurossecretoras (pensa-se que são mantidas num estado de diferenciação incompleta pelo cortisol)
    • Secretam catecolaminas:
      • Epinefrina e norepinefrina
      • Responsáveis pela resposta de luta ou fuga
    • Podem ser descritas como um gânglio simpático endócrino (sem axónios)

Neurovasculatura

Suprimento arterial

As glândulas adrenais são órgãos altamente vasculares.

  • Suprimento sanguíneo (para o córtex e para a medula): cerca de 50 a 60 ramos das 3 principais artérias que entram nas glândulas, descritas a seguir:
    • Artéria suprarrenal superior da artéria frénica inferior
    • Artéria suprarrenal média da aorta
    • Artéria suprarrenal inferior da artéria renal
  • Suprimento sanguíneo medular:
    • Alguns capilares passam por todas as 3 camadas do córtex e entram na medula. A medula pode ser influenciada por secreções do córtex (especialmente glicocorticoides).
    • Alguns ramos das arteríolas correm diretamente da cápsula para a medula.
  • Fluxo sanguíneo: aproximadamente 10 mL/min
  • A hormona adrenocorticotrófica (ACTH, pela sigla em inglês) aumenta o fluxo sanguíneo para as glândulas suprarrenais.
  • Os capilares suprarrenais são fenestrados → melhor absorção dos produtos de secretados

Drenagem venosa

  • Normalmente drenam através de uma única veia de cada lado: veias suprarrenais (adrenais)
    • Veia suprarrenal direita → veia cava inferior
    • Veia suprarrenal esquerda → veia renal esquerda → veia cava inferior
  • Características de especialização das veias suprarrenais:
    • Ausência de túnica média em alguns segmentos → as células cromafins estão presentes logo ao lado da túnica íntima secretam o seu conteúdo rapidamente/diretamente no sangue
    • O músculo liso da túnica média é disposto longitudinalmente → pode contrair e expelir o seu conteúdo rapidamente
Suprimento vascular para as glândulas supra-renais

Suprimento vascular para as glândulas suprarrenais

Imagem por Lecturio.

Drenagem linfática

  • Drenagem por 2 plexos linfáticos:
    • 1 na medula
    • 1 profundamente, na cápsula suprarrenal
  • Drenam no(s):
    • Gânglios aórticos laterais
    • Gânglios para-aórticos próximos à origem da artéria renal
    • Ducto torácico (alguns linfáticos atravessam o diafragma)

Inervação

  • Fibras viscerais (atravessam os gânglios autónomos retroperitoneais) do:
    • Nervo vago
    • Nervo frénico
    • Nervo esplâncnico maior e menor
  • As fibras simpáticas pré-ganglionares fazem sinapse diretamente com as células da medula da suprarrenal.

Função

Funções das hormonas do córtex da suprarrenal

O córtex da suprarrenal secreta hormonas que estão envolvidos na regulação de fluidos, eletrólitos, energia disponível e inflamação, e no desenvolvimento de caractereres sexuais.

  • Mineralocorticoides: aldosterona
    • ↑ Pressão arterial (↑ reabsorção de água pelos rins)
    • ↑ Na+ sérico (↓ excreção urinária de Na+)
    • ↓ K+ sérico (↑ excreção urinária de K+)
    • ↑ pH sérico (↑ excreção urinária de H+)
  • Glicocorticoides: cortisol, corticosterona
    • ↑ Energia disponível imediatamente através de:
      • Catabolismo de gorduras e proteínas → ↑ níveis de aminoácidos e lípidos no sangue
      • Gliconeogénese
      • Estimulação do apetite
    • ↑ Hemácias
    • ↑ Cálcio sérico pela reabsorção óssea (leva a ↓ densidade mineral óssea, ao longo do tempo)
    • Efeitos anti-inflamatórios:
      • ↓ Inflamação
      • ↓ Permeabilidade dos vasos sanguíneos
      • A exposição a longo prazo suprime o sistema imunológico.
  • Androgénios: DHEA e androstenediona
    • Importantes para o desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários
    • Estimula o crescimento de pelos axilares, pelos púbicos e pelos faciais num padrão masculino

Funções das hormonas da medula da suprarrenal

A medula da suprarrenal secreta as catecolaminas epinefrina e norepinefrina, que estimulam a resposta de luta ou fuga. Os efeitos incluem:

  • ↑ Pressão arterial
  • ↑ Frequência cardíaca
  • ↑ Circulação sanguíneas para os músculos esqueléticos
  • ↑ Respiração e broncodilatação
  • ↑ Níveis de glicose no sangue por:
    • Estimulação da glicogenólise
    • Estimulação da gliconeogénese
    • Inibição da libertação de insulina
  • ↓ Digestão

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Relevância Clínica

Várias condições clínicas podem resultar de anomalias das hormonas suprarrenais. As condições mais importantes incluem:

  • Feocromocitoma: tumores secretores de catecolaminas, raros, que surgem das células cromafins da medula adrenal. Os indivíduos, geralmente, apresentam hipertensão resistente ao tratamento, cefaleias episódicas, sudorese e taquicardia. O diagnóstico é realizado através de estudos de imagem da suprarrenal e da avaliação laboratorial, que demonstra elevação das catecolaminas séricas. Cerca de 90% dos casos são benignos, sendo a ressecção cirúrgica o único tratamento curativo.
  • Insuficiência adrenal: produção inadequada de glicocorticoides, mineralocorticoides e androgénios suprarrenais. O diagnóstico é realizado através da medição dos níveis de cortisol e ACTH e de testes de estimulação de ACTH. O tratamento envolve terapêutica de substituição com glicocorticoides e mineralocorticoides.
    • Doença de Addison (insuficiência adrenal primária): Algumas das etiologias incluem doenças autoimunes, infeções e malignidade (entre outras).
    • Insuficiência adrenal secundária e terciária: condições resultantes da diminuição da produção de ACTH dentro da glândula pituitária. A insuficiência adrenal secundária e terciária também podem ocorrer devido à terapêutica prolongada com glicocorticoides.
  • Hiperplasia adrenal congénita: grupo de doenças autossómicas recessivas que causam défice de uma enzima (mais frequentemente défice de 21-hidroxilase) necessária para a síntese de cortisol, aldosterona e androgénios. As manifestações clínicas incluem genitália ambígua em mulheres genotípicas, perda de sal e hipoglicemia. Também existe uma forma menos grave conhecida como hiperplasia adrenal congénita não clássica, que geralmente se apresenta na puberdade. É necessário reposição de glicocorticoides ao longo da vida.
  • Síndrome de Cushing: condição resultante da exposição crónica ao excesso de glicocorticoides. As etiologias incluem a ingestão crónica de glicocorticoides, o aumento da secreção adrenal de cortisol, ou o aumento da secreção hipofisária ou ectópica de ACTH. As características clínicas típicas incluem obesidade central, pele fina e facilmente lesionada, estrias abdominais, hipertensão secundária, hiperglicemia e fraqueza muscular proximal. O diagnóstico é realizado através do teste de cortisol urinário e/ou salivar, juntamente com um teste de supressão de dexametasona em baixa dose, determinação dos níveis de ACTH e exames de imagem.
  • Hiperaldosteronismo: aumento da secreção de aldosterona pelo córtex da suprarrenal. O hiperaldosteronismo pode ser primário (resultante de secreção autónoma (síndrome de Conn)) ou secundário (resultante de secreção fisiológica devido à estimulação do SRAA) e apresenta-se com hipertensão, hipocalemia e alcalose metabólica. O diagnóstico envolve a medição da atividade plasmática de aldosterona e renina, juntamente com imagem para pesquisar tumores secretores de hormonas. O tratamento envolve o uso de antagonistas do recetor da aldosterona e excisão cirúrgica de qualquer tumor secretor de aldosterona.
  • Hipoaldosteronismo: condição resultante de baixos níveis de aldosterona. O hipoaldosteronismo pode ser causado pela diminuição da produção de aldosterona ou pela resistência periférica à aldosterona. Quando o hipoaldosteronismo ocorre como resultado de uma diminuição adquirida na produção de renina pelos rins, a condição é denominada acidose tubular renal (ATR) tipo 4. A maioria dos casos é assintomática e diagnosticada quando a avaliação laboratorial de rotina revela hipercalemia e acidose metabólica hiperclorémica leve, despoletando investigação adicional.

Referências

  1. Roman, S. (2020). Surgical anatomy of the adrenal glands. UpToDate. Retrieved Aug 16, 2021, from https://www.uptodate.com/contents/surgical-anatomy-of-the-adrenal-glands 
  2. Megha, R. (2021). Anatomy, Abdomen and pelvis, adrenal glands (suprarenal glands). StatPearls. Retrieved Aug 16, 2021, from https://www.statpearls.com/articlelibrary/viewarticle/666/ 
  3. Ovalle, W., Nahirney, P. (2020). Netter’s Essential Histology: With Correlated Histopathology (Netter Basic Science) (3rd ed.). Elsevier.

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