Esófago: Anatomia

O esôfago é um órgão muscular em forma de tubo de cerca de 25 centímetros de comprimento que liga a faringe ao estômago. O órgão estende-se aproximadamente da 6ª vértebra cervical até a 11ª vértebra torácica e pode ser dividido, geralmente, em 3 partes: a parte cervical, a parte torácica e a parte abdominal. A parede do esôfago é composta por 4 camadas primárias: mucosa (revestida por epitélio escamoso), submucosa, uma camada muscular mais espessa e uma camada externa de tecido conjuntivo. O esôfago também tem um esfíncter em cada extremidade, o que lhe permite ajudar a controlar a passagem de alimentos para o estômago.

Última atualização: May 25, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Desenvolvimento

Desenvolvimento embrionário do esófago:

  • Começa a formar-se na 4ª semana de desenvolvimento
  • Derivado do intestino anterior do tubo intestinal primitivo (uma invaginação do saco vitelino do embrião)
  • Tem componentes da endoderme e mesoderme:
    • Endoderme: forma o revestimento de todo o trato digestivo, incluindo o esófago
    • A mesoderme esplâncnica forma:
      • Componentes musculares do esófago
      • Tecido conjuntivo
Desenvolvimento embrionário do tubo intestinal

Desenvolvimento embrionário do tubo intestinal

Imagem por Lecturio. Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Anatomia Geral

Características gerais e localização

  • Longo tubo muscular que conecta a faringe ao estômago
  • Estende-se da vértebra C6 a T11
  • Tamanho:
    • Comprimento: aproximadamente 25 cm
    • Diâmetro: aproximadamente 2 cm quando relaxado
  • Secções do esófago:
    • Cervical: percorre o pescoço, atrás da traqueia
    • Torácica: localizada no mediastino, entre o coração e as vértebras
    • Abdominal: localizada abaixo do diafragma, dentro da cavidade abdominal
Localização do esôfago

Localização do esófago

Imagem por Lecturio.

Parte cervical (pars cervicalis)

  • Localizada dentro do pescoço, em conexão direta com a faringe
  • Comprimento: aproximadamente 5 cm
  • Borda superior da parte cervical: borda inferior da cartilagem cricoide (em C6)
    • Conhecida como junção faringoesofágica
    • Esfíncter esofágico superior (EES):
      • Composto por vários músculos, sendo o mais importante o músculo cricofaríngeo
      • Circunda a junção faringoesofágica
      • Ajuda a controlar a passagem de alimentos da faringe para o esófago
  • Borda inferior da parte cervical: a entrada torácica e a incisura esternal (em T1)
  • Relações anatómicas:
    • Anterior: traqueia
    • Anterolateral: tiroide
    • Lateral: bainha carotídea
    • Posterior: vértebras

Parte torácica (pars torácica)

  • Localizada no tórax entre a traqueia e a aorta
  • Comprimento: 17-19 centímetros
  • Borda superior: a entrada torácica e a incisura esternal (em T1)
  • Borda inferior:
    • Diafragma
    • Passa para a cavidade abdominal superior através do hiato esofágico (um orifício no diafragma também denominado buraco esofágico) no nível de T10
  • Relações anatómicas:
    • Estruturas anteriores ao esófago torácico:
      • Traqueia e brônquio principal esquerdo
      • Aorta ascendente e arco aórtico
      • Aurícula esquerda
      • Nervo vago anterior
    • Estruturas posteriores ao esófago:
      • Aorta descendente
      • Vértebra torácica
      • Ducto torácico (à esquerda do esófago)
      • Veias ázigos e hemiázigos
      • Nervo vagal posterior

Parte abdominal (pars abdominalis)

  • Localizada dentro da cavidade abdominal entre o diafragma e o estômago
  • Comprimento: 1-3 cm
  • Curva acentuada para a esquerda para unir à porção cardíaca do estômago
  • Borda superior:
    • O hiato esofágico do diafragma (em T10)
    • Membrana frenoesofágica: ancora o esófago ao diafragma
  • Borda inferior: o orifício cardíaco do estômago (em T11)
    • Conhecida como a junção gastroesofágica (GE)
    • Esfíncter esofágico inferior:
      • Circunda a junção GE
      • Espessamento da camada muscular circular
      • Permite a entrada de alimentos no estômago
      • Previne o refluxo do conteúdo do estômago para o esófago
  • Relações anatómicas:
    • Anterior: fígado
    • Posterior: aorta descendente
    • Borda direita: contínua com a curvatura menor do estômago
    • Borda esquerda: separada do fundo do estômago pela incisura cardíaca
  • Relação com o peritoneu:
    • Coberto por peritoneu parietal
    • Retroperitoneal

Constrições

As constrições são estreitamentos normais no tubo do esófago.

  • Constrição faringoesofágica:
    • Causada pela cartilagem cricoide
    • Porção mais estreita do esófago
  • Constrição aortobrônquica: causada pela proximidade do arco aórtico e do brônquio principal esquerdo (aproximadamente T4)
  • Constrição diafragmática: causada pela passagem do esófago através do hiato esofágico do diafragma

Anatomia Microscópica

Visão geral da anatomia da parede esofágica

A parede esofágica consiste em 4 camadas primárias:

  1. Mucosa
  2. Submucosa
  3. Muscular própria
  4. Adventícia/serosa
Camadas da parede esofágica

Camadas da parede esofágica

Imagem por Lecturio.

Camada mucosa

Consiste em 3 subcamadas:

  1. Epitélio escamoso estratificado não queratinizado:
    • Reveste o lúmen
    • Capaz de resistir às forças abrasivas do conteúdo alimentar e do ácido estomacal regurgitado
    • Linha Z (também conhecida como junção escamocolunar): transição do epitélio escamoso para colunar quando o esófago entra no estômago
  2. Lâmina própria, uma camada de tecido conjuntivo que contém:
    • Neurovasculatura
    • Tecido linfático
  3. Muscular mucosa
    • Camada muscular fina
    • Contrai independentemente da muscular externa

Camada submucosa

Localizada entre as camadas mucosa e muscular, a camada submucosa é uma camada de tecido conjuntivo que contém:

  • Vasos sanguíneos maiores
  • Plexo nervoso submucoso (Meissner) (gânglios do SNA): controla a muscular mucosa (independente da muscular própria)
  • Glândulas esofágicas:
    • Glândulas Tubuloacinares
    • Produzem muco lubrificante
  • Dobras longitudinais:
    • Dobras espessas ao longo do comprimento do esófago
    • Permitem a distensão do esófago durante a deglutição

Muscular própria

  • Também denominada muscular externa
  • Responsável pelas ondas peristálticas que movem o alimento em direção ao estômago
  • Composta por 2 camadas:
    • Fibras musculares circulares internas
    • Fibras musculares longitudinais externas
  • Consiste em músculos estriados e lisos
    • Parte craniana (⅓ proximal): músculo estriado (sob controlo somático)
    • Intermediário: misto
    • Parte distal (⅓ distal): músculo liso (sob controlo autónomo)
  • Contém o plexo nervoso mioentérico (Auerbach)
    • Gânglios do SNA que controlam a muscular externa/estimulam o peristaltismo
    • Localizado entre as 2 camadas de músculo liso

Camada adventícia/serosa

  • Tecido conjuntivo em redor do esófago
  • Adventícia (mais fibrosa) acima do diafragma
  • Serosa abaixo do diafragma
  • Contém:
    • Grandes vasos
    • Vasos linfáticos
    • Fascículos nervosos:
      • Nervo vago
      • Plexo simpático esofágico
Imagem em corte transversal de baixa ampliação do esôfago (coloração h&e)

Imagem de baixa ampliação, em corte transversal, do esófago (coloração H&E)

Imagem de Geoffrey Meyer, PhD

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Neurovasculatura

Suprimento arterial

  • Parte cervical: artéria tiroideia inferior
  • Parte torácica:
    • Ramos da aorta torácica:
      • Ramos brônquicos
      • Ramos esofágicos
    • Artérias intercostais
  • Parte abdominal:
    • Ramo esofágico da artéria gástrica esquerda
    • Artéria frénica esquerda
Imagem exibindo algumas das artérias responsáveis pelo suprimento sanguíneo do esôfago

Imagem a exibir algumas das artérias responsáveis pelo suprimento sanguíneo do esófago

Imagem: “Thoracic Abdominal Arteries” por OpenStax College. Licença: CC BY 3.0

Drenagem venosa

  • Parte cervical: veia tiroideia inferior
  • Parte torácica: no final drena para a veia cava inferior (VCI)
    • Veias ázigos
    • Veias hemiázigos
    • Veias intercostais
    • Veias brônquicas
  • Parte abdominal: no final drena para a veia porta através da veia gástrica esquerda
  • Relevância clínica:
    • As veias que circundam o esófago formam uma importante anastomose entre o sistema porta e as veias sistémicas.
    • O ↑ da pressão no sistema porta pode levar a varizes esofágicas, que podem causar hemorragia GI superior profusa se ocorrer rutura

Drenagem linfática

  • Drenado por 2 plexos primários: redes densas de vasos longitudinais contínuos com os vasos linfáticos da faringe (acima) e da mucosa gástrica (abaixo)
    • Plexo mucoso
    • Plexo submucoso
  • Parte cervical: drena para gânglios cervicais profundos
  • Parte torácica: drena para gânglios mediastinais posteriores
  • Parte abdominal: drena para os gânglios gástricos e celíacos esquerdos
  • Ocorre também drenagem direta para o ducto torácico.

Inervação

  • Músculos estriados no ⅓ superior: nervo laríngeo recorrente (ramo do vago)
  • Músculos lisos: controle autonómico através dos sistemas parassimpático e simpático
  • Inervação simpática:
    • Inibitória:
      • Causa relaxamento da parede muscular
      • Contração tónica dos esfíncteres esofágicos
    • Via fibras pós-ganglionares dos gânglios estrelados e torácicos
    • Inclui fibras aferentes de dor visceral
  • Inervação parassimpática:
    • Estimulante:
      • Ondas de contração da parede muscular/peristaltismo
      • ↑ Secreções glandulares
      • Relaxamento dos esfíncteres para permitir a passagem do alimento
    • Via ramos do nervo vago
    • Sinapse com gânglios nos plexos de Meissner e Auerbach
    • Inclui fibras aferentes que podem detetar pressão

Função

A função primária do esófago é transportar o alimento parcialmente digerido da faringe para o estômago:

  • As contrações do músculo esofágico em forma de onda, denominadas peristaltismo, movem o alimento para o estômago.
  • Produção de muco pelas glândulas esofágicas → lubrificam o bolo alimentar e auxiliam no seu transporte
  • Contração tónica dos esfíncteres → relaxam quando o alimento é deglutido para permitir a passagem para baixo

Relevância Clínica

  • Atrésia esofágica: anomalia congénita na qual o esófago não se desenvolve completamente, criando uma bolsa cega que impede que o conteúdo deglutido passe para o estômago. A atrésia esofágica pode causar polidrâmnios in utero (porque o feto é incapaz de deglutir normalmente o líquido amniótico) e apresenta-se ao nascimento com regurgitação de todo o conteúdo deglutido. A condição é diagnosticada pela incapacidade de passar uma sonda NG até ao estômago; o tubo será encontrado enrolando na bolsa cega na radiografia de tórax. O tratamento é cirúrgico.
  • Fístula traqueoesofágica (FTE): comunicação anormal entre a traqueia e o esófago. As fístulas traqueoesofágicas estão, geralmente, associadas a outras anomalias, especialmente a atrésia esofágica, anomalias da associação VACTERL e síndrome CHARGE. A apresentação dependerá da anomalia exata, mas os sintomas podem incluir incapacidade em se alimentar, vómito/regurgitação, secreções excessivas, distensão gástrica pelo ar inspirado e pneumonia por aspiração. O tratamento é cirúrgico.
  • Hérnia de hiato: protrusão do esófago abdominal e/ou estômago através do hiato esofágico. As hérnias hiatais podem ser decorrentes de um defeito congénito no diafragma, trauma ou doença iatrogénica após a disseção cirúrgica do hiato durante certos procedimentos (e.g., procedimentos antirrefluxo). A maioria das hérnias hiatais é assintomática, mas hérnias maiores podem causar pirose, regurgitação ou disfagia.
  • Divertículos esofágicos: protuberâncias da parede esofágica que formam pequenos sacos. As bolsas podem ser classificadas de acordo com a sua localização: faringoesofágica (divertículo de Zenker), mesoesofágica ou epifrénica. Os sintomas incluem disfagia, regurgitação e halitose (mau hálito).
  • Acalásia: distúrbio primário da motilidade esofágica que se desenvolve a partir da degeneração do plexo mioentérico, resultando na alteração do relaxamento do esfíncter esofágico inferior e ausência de peristaltismo esofágico normal. Os doentes, geralmente, apresentam disfagia para sólidos e líquidos, associada a regurgitação. O diagnóstico é estabelecido pela manometria esofágica.
  • Esofagite: inflamação ou irritação do esófago. A esofagite pode ser causada por fármacos, infeções, refluxo ácido, eosinofilia ou ingestão de substâncias corrosivas. Os doentes apresentam-se tipicamente com odinofagia, disfagia e dor torácica retroesternal. O diagnóstico é realizado por endoscopia com biópsia. O tratamento da esofagite depende da etiologia subjacente.
  • Síndrome de Mallory-Weiss: condição caracterizada por uma rutura longitudinal na mucosa do esófago, geralmente localizada na junção GE. A condição é, geralmente, causada por vómitos forçados e é frequentemente associada ao alcoolismo. As lesões de Mallory-Weiss podem levar a hemorragia do trato GI superior, e os doentes geralmente apresentam dor epigástrica e/ou hematemeses. O diagnóstico e o tratamento são realizados por endoscopia esofágica.
  • Varizes esofágicas: dilatação das veias esofágicas que se formam devido ao aumento da pressão no sistema venoso portal. As varizes esofágicas são observadas em aproximadamente ½ dos indivíduos com cirrose. O risco de rutura de varizes é alto (ocorre em aproximadamente ⅓ dos doentes com varizes) e pode resultar em hemorragia significativa com risco de vida. O tratamento inclui opções cirúrgicas (e.g., laqueação das varizes, colocação de um shunt) e opções médicas para reduzir a hipertensão portal (e.g., betabloqueadores).
  • Esófago de Barrett: condição pré-neoplásica na qual o epitélio escamoso normal do esófago é substituído por epitélio colunar devido à esofagite de refluxo de longa duração. O esófago de Barrett está associado a um risco aumentado de adenocarcinoma esofágico. O diagnóstico é realizado por endoscopia, que revela deslocamento proximal da junção escamocolunar (linha Z) para longe da junção GE. O tratamento é principalmente com inibidores da bomba de protões (IBPs) e modificações no estilo de vida.
  • Cancro do esófago: os 2 principais tipos de neoplasias primárias do esófago são o carcinoma de células escamosas ((CEC) que afeta tipicamente o esófago superior) e o adenocarcinoma (que afeta tipicamente o esófago inferior). Os fatores de risco incluem tabagismo, obesidade, esófago de Barrett, consumo de álcool e certos fatores dietéticos. A neoplasia em estágio inicial é geralmente assintomática, com a disfagia e a perda de peso a manifestarem-se à medida que a doença progride. O diagnóstico é realizado por biópsia endoscópica ou biópsia do local metastático guiada por imagem.

Referências

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  2. Mazziotti, M. (2021). Congenital anomalies of esophagus. Medscape. Retrieved Sep 3, 2021, from https://emedicine.medscape.com/article/934420-overview 
  3. Chaudhry, S. (2021). Anatomy, thorax, esophagus. StatPearls. Retrieved Sep 3, 2021, from https://www.statpearls.com/articlelibrary/viewarticle/33963/ 
  4. Saladin, KS, & Miller, L. (Eds.) (2004). The digestive system. In Anatomy and Physiology. (3rd ed., pp. 948–949). 
  5. DeNardi, FG, & Riddell, RH. (1991). The normal esophagus. Am J Surg Pathol, 15(3): 296–309. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/1996732/
  6. Nikaki, K, Sawada, A, Ustaoglu, A, & Sifrim, D. (2019). Neuronal control of esophageal peristalsis and its role in esophageal disease. Curr Gastroenterol Rep. 2019, 21(11):59. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31760496/
  7. Sasegbon, A, Hamdy, S. (2017). The anatomy and physiology of normal and abnormal swallowing in oropharyngeal dysphagia. Neurogastroenterol Motil, 29(11). https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28547793/

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