Bronquite Aguda

A bronquite aguda é uma infeção da mucosa dos brônquios sem evidência de pneumonia. Devido à sua patogénese, a bronquite aguda é frequentemente acompanhada por uma infeção do trato respiratório superior. Os casos em que a traqueia também está envolvida são chamados de traqueobronquite. A bronquite aguda é geralmente de etiologia vírica (cerca de 95% dos casos), sendo que as infeções bacterianas são habitualmente causadas por bactérias atípicas. O diagnóstico de bronquite aguda é clínico, embora uma radiografia de tórax possa ser útil para descartar pneumonia. O tratamento é de suporte e os antibióticos não estão indicados em adultos saudáveis.

Última atualização: Jul 8, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Descrição Geral

Definição

A bronquite aguda é uma inflamação aguda das grandes vias aéreas do trato respiratório inferior sem afeção do parênquima pulmonar.

  • Ocorre devido a uma infeção vírica ou bacteriana
  • Frequentemente precedida por uma infeção das vias aéreas superiores (VAS) de etiologia semelhante
  • A bronquite aguda vírica pode evoluir para uma sobreinfeção bacteriana secundária.

Epidemiologia

A bronquite aguda é uma doença muito frequente.

  • Incidência:
    • Cerca de 5% dos adultos têm um episódio de bronquite aguda a cada ano.
    • Está entre as 10 principais doenças para as quais os doentes procuram atendimento médico
  • Sazonalidade: mais frequente no final do outono e nos meses de inverno
  • Predominância de género: afeta ambos os géneros de igual forma
  • Predominância etária: as crianças e os adolescentes são afetados mais comummente que os adultos.

Etiologia

A bronquite aguda é causada mais frequentemente por uma infeção vírica, embora a etiologia bacteriana seja possível.

  • Bronquite vírica: responsável por cerca de 95% dos casos de bronquite aguda
    • Gripe (influenza A e B)
    • Parainfluenza
    • Vírus sincicial respiratório (VSR)
    • Rinovírus
    • Coronavírus
      • Inclui os Tipos 1, 2 e 3
      • SARS-coronavírus-2 (SARS-CoV-2)
  • Bronquite aguda bacteriana: responsável apenas por cerca de 5% dos casos
    • Mycoplasma pneumoniae
    • Chlamydia pneumoniae
    • Bordetella pertussis
    • Agentes etiológicos raros, ocorrendo geralmente apenas por instrumentação das vias aéreas ou nos doentes com doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC):
      • Streptococcus pneumoniae
      • Staphylococcus aureus
      • Haemophilus influenzae
      • Moraxella catarrhalis
  • Fatores de risco:
    • Doença pulmonar crónica (por exemplo, DPOC, asma)
    • Tabagismo
    • Exposição crónica à poluição do ar

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Fisiopatologia

A bronquite aguda é caracterizada pela infeção e inflamação das células que revestem os brônquios.

  • A irritação e a inflamação causam:
    • Disfunção ciliar
    • Hiperémia e edema da mucosa
    • Diminuição da função mucociliar brônquica
    • Aumento da produção de muco → tosse característica da bronquite aguda
  • Pode desenvolver-se uma broncopneumonia se a inflamação se estender aos bronquíolos e ao parênquima pulmonar.
Acute bronchitis pathophysiology

Fisiopatologia da bronquite aguda
A: anatomia normal
B: vista detalhada de um brônquio normal
C: brônquio inflamado com excesso de muco na bronquite aguda

Imagem por Lecturio.

Apresentação Clínica

A bronquite aguda é tipicamente uma doença autolimitada com uma tosse proeminente que dura entre 1 a 3 semanas.

  • Tosse (o sintoma predominante):
    • Início agudo
    • Produtiva com expetoração clara, amarela ou purulenta
    • Nota: A expetoração purulenta não é específica da etiologia bacteriana.
  • Dor torácica pela tosse frequente
  • Sibilos / Pieira
  • Roncos que diminuem com a tosse
  • Dispneia leve
  • Mal-estar
  • Febre:
    • Possível, mas pouco frequente na bronquite aguda
    • Se presente, é geralmente de baixo grau
    • Deve levantar a suspeita de uma eventual pneumonia ou sobreinfeção bacteriana.
  • Geralmente, uma IVAS (“constipação comum”) precede a bronquite aguda e pode apresentar sintomas que se sobrepõem ao início da mesma:
    • Cefaleias
    • Congestão nasal
    • Odinofagia
  • Achados mais consistentes com pneumonia do que com bronquite aguda:
    • Febre
    • Taquipneia
    • Crepitações
    • Macicez à percussão
    • Egofonia
    • Frémito tátil

Diagnóstico

A bronquite aguda é tipicamente um diagnóstico clínico que se baseia na história e no exame objetivo, e do qual se deve suspeitar em doentes com tosse de início agudo, que se segue muitas vezes a uma IVAS sem achados de pneumonia. O estudo adicional pode incluir:

Raio-X do tórax

  • Para descartar pneumonia
  • Indicações:
    • Sinais de consolidação no exame objetivo:
      • Macicez à percussão
      • Egofonia
      • Frémito tátil
    • Sinais vitais alterados:
      • Febre
      • Taquicardia
      • Taquipneia
      • ↓ Saturação de oxigénio
    • Alteração do estado mental ou alterações comportamentais nos idosos (> 75 anos)
    • Doentes imunocomprometidos
  • Achados:
    • Na bronquite aguda geralmente é normal.
    • Pode mostrar espessamento das paredes brônquicas nos lobos inferiores
    • Infiltrados/consolidação indicam pneumonia.
Radiografia de tórax mostra proeminência broncovascular

Radiografia de tórax que mostra um reforço broncovascular.

Imagem: “Chest radiography shows bronchovascular prominance on admission” de Sertogullarindan, B. et al. Licença: CC BY 2.0

Estudos microbiológicos

  • Raramente indicados porque os resultados geralmente não vão alterar o tratamento.
  • Não recomendados, exceto na suspeita de surto: coloração de Gram e cultura de expetoração (porque as causas bacterianas são raras)
  • Considerar testar para o influenza se:
    • Febre e tosse durante a época gripal
    • Crianças < 2 anos
    • Adultos > 65 anos
    • Grávidas
    • Residentes em lares de idosos
    • Doentes imunocomprometidos
    • Comorbilidades médicas:
      • Asma
      • DPOC
      • Fibrose quística
      • Doenças cardíacas, renais, hepáticas, endócrinas ou sanguíneas
      • IMC ≥ 40
  • Considerar testar para a tosse convulsa se:
    • Tosse paroxística com grito inspiratório
    • Vómitos provocados pela tosse
  • Considerar testar para a COVID-19: todos os indivíduos com infeções respiratórias durante a pandemia

Tratamento

A bronquite aguda é uma doença tipicamente autolimitada e que geralmente requer apenas cuidados de suporte.

Educação do doente

  • Os sintomas resolvem espontaneamente dentro de 1 a 3 semanas.
  • Explicar aos doentes que os solicitam a razão pela qual os antibióticos não estão indicados.
  • Discutir os melhores tratamentos para a redução dos sintomas.

Tratamento sintomático

  • Tosse:
    • Tratamento não farmacológico (não há evidência da eficácia, mas o risco é baixo e pode aliviar os sintomas):
      • Chá quente
      • Pastilhas para a garganta
      • Mel
    • Fármacos antitússicos (a eficácia é incerta, mas as orientações para a prática clínica recomendam a sua prescrição para diminuir o uso de antibióticos):
      • Dextrometorfano (Robitussin)
      • Guaifenesina (Mucinex)
      • Codeína (geralmente evitada devido ao potencial aditivo)
  • Mal-estar, mialgias e febre:
    • Antipiréticos analgésicos:
      • AINEs
      • Acetaminofeno (Paracetamol)
  • Pieira/sibilos: beta-agonistas (Albuterol)
  • Doentes com doença pulmonar subjacente (DPOC, asma):
    • Prednisona
    • Otimizar o tratamento das doenças subjacentes.
    • Considerar antimicrobianos nos casos de infeções bacterianas conhecidas ou suspeitas.

Antimicrobianos

Os antibióticos NÃO estão recomendados na bronquite aguda em adultos saudáveis. Há fortes evidências para evitar antibióticos, embora a prescrição excessiva inadequada ainda seja comum.

  • Riscos da antibioterapia:
    • Alterações do microbioma, que podem prejudicar a função imunológica
    • Infeção por Clostridium difficile
    • Aumento da resistência aos antibióticos
  • Indicações para antimicrobianos se identificado um agente patogénico tratável:
    • Influenza: inibidores da neuraminidase (por exemplo, oseltamivir, zanamivir)
    • Tosse convulsa: macrólidos (por exemplo, azitromicina, eritromicina)
    • COVID-19: gestão complexa com alterações frequentes das recomendações.
  • Outras causas bacterianas de bronquite aguda:
    • Os antibióticos geralmente não estão recomendados na ausência de pneumonia.
    • Considerar tratamento nos doentes com doenças pulmonares subjacentes e/ou em indivíduos com alto risco de complicações.

Alterações do estilo de vida

  • Cessação tabágica
  • Evicção de alergénios/poluentes
  • Vacinas contra a gripe e a pneumonia de acordo com as recomendações.

Diagnóstico Diferencial

  • Pneumonia: infeção do parênquima pulmonar mais comummente causada por bactérias ou vírus. A pneumonia adquirida na comunidade (PAC) representa 80% dos casos. O diagnóstico de pneumonia baseia-se na apresentação clínica com febre, tosse produtiva, dispneia e crepitações, bem como na presença de consolidação na radiografia de tórax. O tratamento antibiótico empírico é geralmente apropriado na PAC, no entanto, a pneumonia num doente ventilado requer habitualmente uma terapêutica baseada nas culturas.
  • Gripe: doença respiratória altamente contagiosa e febril. A gripe apresenta-se tipicamente com febre, mialgias, cefaleias e sintomas de IVAS. Os sintomas de gastroenterite também podem ocorrer, sobretudo nas crianças. O diagnóstico é geralmente clínico, embora estejam disponíveis outros métodos complementares de diagnótico. Uma radiografia de tórax é necessária nos doentes com alto risco de pneumonia ou nos indivíduos que apresentem sintomas de pneumonia vírica ou bacteriana secundária complicada. O tratamento, quando iniciado precocemente, pode incluir inibidores da neuraminidase e da M2.
  • Tosse convulsa: infeção bacteriana potencialmente fatal que se apresenta com tosse paroxística intensa seguida de um som inspiratório de “grito” e/ou vómitos. A tosse convulsa pode ser grave em lactentes < 1 ano. Se houver suspeita de tosse convulsa, deve ser iniciada a antibioterapia imediata com macrólidos, mesmo se a confirmação laboratorial estiver pendente. A tosse convulsa pode ser prevenida através da imunização.
  • Bronquiolite: doença respiratória causada pela inflamação dos bronquíolos, sendo a maioria dos casos causada pelo VSR, que afeta crianças. Geralmente, os doentes apresentam inicialmente sintomas respiratórios superiores, como tosse e congestão, que podem evoluir posteriormente para dispneia, sibilos / pieira e hipóxia. O diagnóstico é clínico e o tratamento é direcionado à melhoria da oxigenação e da hidratação. A bronquiolite é uma doença autolimitada com bom prognóstico.
  • Sinusite aguda: infeção respiratória superior vírica (mais comum), bacteriana ou fúngica, que resulta em inflamação da mucosa dos seios perinasais. A sinusite aguda ocorre habitualmente de forma concomitante à inflamação da mucosa nasal e apresenta-se com dor facial sobre o seio afetado e rinorreia purulenta. O diagnóstico geralmente é clínico e o tratamento é de suporte. Os antibióticos estão indicados nos casos de sinusite bacteriana, menos comuns.
  • Asma: doença respiratória inflamatória crónica caracterizada por hiperreatividade brônquica e obstrução do fluxo aéreo. A asma apresenta-se tipicamente com sibilos, tosse e dispneia. O diagnóstico é confirmado com uma espirometria que mostra um padrão obstrutivo reversível. O tratamento é feito com broncodilatadores e corticoides inalatórios.
  • Aspiração de corpo estranho: Os corpos estranhos aspirados podem alojar-se nos brônquios, afetar a respiração e causar infeção ou erosão das paredes brônquicas. Os corpos estranhos são mais frequentemente aspirados por crianças, que podem apresentar-se com tosse ou sibilos. O diagnóstico é feito com base em exames de imagem e o tratamento visa a remoção imediata do corpo estranho.
  • DRGE: ocorre quando o ácido do estômago flui de volta para o esófago repetidamente. O refluxo ácido pode irritar a mucosa esofágica e causar sintomas como ardor retroesternal, regurgitação, tosse e odinofagia. O diagnóstico habitualmente é clínico, podendo ser confirmado através de uma pHmetria em ambulatório. O tratamento baseia-se em modificações do estilo de vida e em fármacos redutores do ácido.
  • Insuficiência cardíaca: refere-se à incapacidade do coração de fornecer ao corpo um débito suficiente para suprir as suas necessidades metabólicas. A apresentação da insuficiência cardíaca inclui dor torácica, dispneia com os esforços, tosse que piora em decúbito, fadiga, edema depressível e crepitações ao exame objetivo. Um ecocardiograma de stress irá revelar uma redução da função cardíaca. Uma radiografia de tórax mostrará edema pulmonar. O tratamento é feito com vários agentes farmacológicos e modificações no estilo de vida.

Referências

  1. CDC. (2019). Chest Cold (Acute Bronchitis). https://www.cdc.gov/antibiotic-use/community/for-patients/common-illnesses/bronchitis.html
  2. Singh, A., Avula, A., Zahn, E. (2020). Acute Bronchitis. StatPearls. Retrieved March 23, 2021, from https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK448067/
  3. File, T. (2021). Acute Bronchitis in Adults. In Bond, S. (Ed.). UpToDate. Retrieved March 23, 2021, from https://www.uptodate.com/contents/acute-bronchitis-in-adults

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