Ascaris/Ascaridíase

Ascaris é um género de nemátodes parasitas. O agente etiológico mais comum da infeção, ascaridíase, é a espécie A. lumbricoides. A transmissão ocorre principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados com ovos de Ascaris. A maioria dos pacientes com ascaridíase é assintomática. Se sintomáticos, a apresentação clínica pode cursar com 2 fases, que se correlacionam com a migração do parasita pelo corpo. A fase inicial pode incluir tosse, dispneia e sibilos. A fase tardia pode apresentar-se com desconforto e distensão abdominal, náuseas e diarreia intermitente. As infeções mais graves podem causar obstrução intestinal e comprometimento do crescimento nas crianças. O diagnóstico é estabelecido através da recuperação de um parasita adulto das fezes do paciente ou da identificação microscópica dos ovos nas fezes do paciente. O tratamento inclui terapêutica anti-helmíntica com albendazol, mebendazol ou pamoato de pirantel.

Última atualização: 2 Aug, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Características Gerais e Epidemiologia

Características gerais de Ascaris

Ascaris é um género de nemátodes parasitas (lombrigas).

Adultos:

  • Características:
    • Cutícula estriada
    • 3 lábios pequenos
    • Boca apical
    • Tempo de vida: 1-2 anos
  • Machos:
    • Diâmetro: 2–4 mm
    • Comprimento: 15-30 cm de comprimento
    • Extremidade curvada ventralmente
    • Cauda afunilada
  • Fêmeas:
    • Diâmetro: 3–6 mm
    • Comprimento: 20-50 cm
    • Extremidade mais reta
    • Pode colocar até 200.000 ovos por dia

Ovos:

  • Forma oval
  • Casca externa grossa e irregular
  • Os ovos não fertilizados não são infeciosos.
  • Extremamente resistentes a dissecação, químicos e até a baixas temperaturas.

Espécies clinicamente relevantes

A ascaridíase é causada por:

  • A. lumbricoides (mais comum)
  • A. suum

Epidemiologia

A ascaridíase é uma das infeções parasitárias mais comuns em humanos.

  • Aproximadamente 1 bilião de pessoas estão infetadas em todo o mundo.
  • Os locais mais prevalentes são:
    • Ásia
    • África
    • América do Sul
    • Rural > urbano
    • Climas tropicais e húmidos
  • Crianças > adultos

Patogénese

Reservatórios

A. lumbricoides:

  • Humanos
  • Ovos no solo

A. suum:

  • Porcos
  • Humanos

Transmissão

  • Via fecal-oral (A. lumbricoides e A. suum)
  • Ingestão de fígado de porco ou frango cru (A. suum)

Ciclo de vida

  • Os ovos embrionados são ingeridos através de alimentos ou água contaminados.
  • As larvas eclodem → penetram na mucosa intestinal
  • As larvas são transportadas através do sistema porta → circulação sistémica → circulação pulmonar → pulmões
  • As larvas completam a sua maturação em 1-2 semanas nos alvéolos.
  • Migração pela traqueia → entrada no trato GI através da tosse e deglutição
  • As larvas amadurecem e transformam-se em vermes adultos nos intestinos → as fémeas põem ovos
  • Os ovos são excretados nas fezes → embrionam no solo → o ciclo continua
Diagrama de ciclo de vida de ascaris

Diagrama resumo do ciclo de vida de Ascaris lumbricoides

Imagem por Lecturio. Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Fisiopatologia

Efeito da migração das larvas nos pulmões → síndrome de Löffler:

  • Sintomas respiratórios
  • Pneumonite eosinofílica

Efeito dos vermes adultos no trato GI:

  • Competição por nutrientes e afeção da absorção → desnutrição (sobretudo em crianças)
  • Massa emaranhada de vermes em infeções graves → obstrução intestinal
  • Migração aberrante → obstrução de:
    • Trato biliar → colecistite
    • Ductos pancreáticos → pancreatite
    • Apêndice → apendicite

Apresentação Clínica

Geral

  • Período de incubação: 4-16 dias após a ingestão
  • A maioria dos pacientes com ascaridíase é assintomática.
  • A doença sintomática pode apresentar-se em 2 fases:
    • Fase inicial (fase pulmonar)
    • Fase tardia (fase intestinal)

Fase inicial

Os sintomas da síndrome de Löffler incluem:

  • Febre
  • Tosse
  • Expetoração hemoptóica
  • Dispneia
  • Sibilos
  • Dor torácica subesternal
  • Urticária

Fase tardia

  • Dor abdominal
  • Edema
  • Náuseas e vómitos
  • Anorexia
  • Diarreia intermitente
  • Vermes adultos eliminados nas fezes

Complicações

  • Desnutrição em crianças:
    • Aumento ponderal insuficiente e infertilidade
    • Baixa estatura
    • Afeção do desenvolvimento cognitivo
  • Obstrução intestinal
  • Colecistite
  • Colangite aguda
  • Abcesso hepático
  • Pancreatite
  • Apendicite

Diagnóstico e Tratamento

Diagnóstico

Definitivo:

  • Exame microscópico dos ovos nas fezes
  • Presença de vermes nas fezes

Exames de suporte:

  • Hemograma completo: eosinofilia (frequentemente observada na fase inicial)
  • Imagiologia:
    • Radiografia do tórax: infiltrados irregulares → síndrome de Löffler
    • Radiografia abdominal:
      • Se suspeita de obstrução intestinal
      • O contraste de bário pode demonstrar defeitos de enchimento devido à presença de vermes.
    • TC ou RM:
      • Pode demonstrar vermes no intestino
      • A aparência de “olho de boi” indica uma secção transversal do verme na imagem
    • Ecografia: avaliação das complicações hepatobiliares
Infecção por ascaris no raio-x

Radiografia abdominal após ingestão de bário num paciente com ascaridíase:
Os vermes adultos surgem no duodeno como uma massa emaranhada (áreas pretas) dentro do branco do meio de contraste.

Imagem: “Duodenal worms” por Larry Hadley. Licença: CC BY 2.0

Tratamento

  • Albendazol (preferencialmente)
  • Mebendazol
  • Pamoato de Pirantel

Prevenção

  • Lavagem das mãos.
  • Lavagem de vegetais e frutas crus.
  • Cozinhar corretamente os alimentos.
  • Higienização adequada.
  • Não usar fezes humanas ou de porco como fertilizante.

Comparação entre Lombrigas

Tabela: Comparação de helmintas semelhantes e doenças associadas
Microorganismo Enterobius vermicularis Toxocara canis Ascaris lumbricoides Strongyloides stercoralis Trichinella spiralis
Reservatório Humanos Cães Humanos
  • Humanos
  • Cães
  • Gatos
Porcos
Transmissão Fecal-oral Fecal-oral Fecal-oral Contacto da pele com o solo contaminado Comer carne crua ou mal cozinhada
Clínica
  • Prurido anal
  • Dor abdominal e vómitos são pouco frequentes.
  • Larva Migrans visceral
  • Larva Migrans ocular
  • Tosse
  • Sibilos
  • Hemoptises
  • Cólica abdominal
  • Náuseas
  • Desnutrição
  • Tosse
  • Sibilos
  • Dor abdominal
  • Diarreia
  • Rash
  • Dor abdominal
  • Diarreia
  • Náuseas/vómitos
  • Febre
  • Edema periorbitário
  • Mialgias
  • Erupção cutânea petequial
  • Tosse
  • Hepatomegalia
Diagnóstico
  • Clínico
  • Teste de fita celofane
  • Serologia
  • Biópsia
Análise das fezes
  • Análise das fezes
  • Serologia
  • Serologia
  • Biópsia muscular
Tratamento
  • Albendazol
  • Mebendazol
  • Pamoato de Pirantel
  • Albendazol
  • Mebendazol
  • Albendazol
  • Mebendazol
  • Ivermectina
  • Albendazol
  • Doença autolimitada
  • Albendazol
  • Mebendazol
  • Corticosteróides
Prevenção Boa Higiene
  • Higiene adequada
  • Desparasitação dos cães.
  • Eliminação correta das fezes de cão
  • Higiene adequada
  • Lavar as frutas e vegetais crus antes de consumir.
  • Usar sapatos e roupas de proteção.
  • Melhorar as condições de saneamento.
  • Manuseamento de carnes adequado
  • Cozinhar bem a carne.

Diagnósticos Diferenciais

  • Pneumonia: infeção do parênquima pulmonar causada maioritariamente por uma bactéria ou vírus. Os pacientes apresentam febre, dispneia e tosse produtiva. Os achados da radiografia do tórax podem demonstrar uma consolidação lobar; podem ser observados infiltrados multifocais em alguns casos. O tratamento envolve antibioterapia empírica na maioria dos casos, que pode ser dirigida se o microorganismo causador for identificado. Os antivirais são usados nos casos de suspeita de uma causa viral.
  • Asma: condição respiratória inflamatória caracterizada por hiperresponsividade brônquica e obstrução do fluxo aéreo. Ao contrário da ascaridíase, é uma condição crónica. Os pacientes apresentam habitualmente sibilos, tosse e dispneia. O diagnóstico é confirmado com provas funcionais respiratórias que mostram um padrão obstrutivo reversível. O tratamento inclui broncodilatadores e corticosteróides inalatórios para controlo da inflamação. Os agentes biológicos podem ser usados na asma grave e persistente.
  • Aspergilose broncopulmonar alérgica (ABPA): reação de hipersensibilidade ao Aspergillus. Os pacientes podem apresentar sintomas de obstrução das vias aéreas, como dispneia, sibilos, tosse produtiva e febre. Analiticamente pode haver eosinofilia e podem estar presentes bronquiectasias e fibrose pulmonar, se não forem tratadas. O diagnóstico é estabelecido com exames de imagem, níveis de IgE, testes cutâneos e serologias. O tratamento inclui corticoterapia e terapêutica antifúngica.
  • Gastroenterite: inflamação do estômago e intestinos, frequentemente causada por bactérias, vírus ou parasitas. As características clínicas incluem dor abdominal, diarreia, vómitos, febre e desidratação. O diagnóstico com análise ou cultura das fezes nem sempre é necessário, mas pode ajudar a determinar a etiologia em algumas circunstâncias. A maioria dos casos é autolimitada; portanto, o tratamento é de suporte. Os antibióticos estão indicados nos casos graves.
  • Colecistite aguda: inflamação da vesícula biliar resultante da impactação sustentada de cálculos biliares no canal cístico. Os pacientes apresentam dor abdominal superior tipo cólica, náuseas e vómitos. A inflamação da vesícula biliar e os cálculos biliares são observados por ecografia ou tomografia computadorizada. Não são observados vermes adultos na imagem, o que exclui a ascaridíase. O tratamento inclui fluidoterapia IV, antibioterapia e colecistectomia.
  • Pancreatite aguda: inflamação do pâncreas. Os pacientes apresentam dor epigástrica severa de início súbito, que geralmente é aguda e apresenta irradiação lombar. O diagnóstico pode ser estabelecido pela história clínica de dor típica, elevação analítica da lipase ou exames de imagem com observação de edema pancreático. O tratamento inclui repouso intestinal, controlo da dor e hidratação com fluidoterapia IV.

Referências

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