Vírus Sincicial Respiratório

O vírus sincicial respiratório (VSR) é um vírus de RNA de sentido negativo linear, envelopado, de cadeia simples, da família Paramyxoviridae e do género Orthopneumovirus. Existem dois subtipos (A e B), presentes em surtos, sendo que o tipo A causa doença mais grave. O vírus sincicial respiratório causa infeções dos pulmões e do trato respiratório e propaga-se através de gotículas respiratórias. O vírus sincicial respiratório é a principal causa de infeções do trato respiratório inferior em bebés e crianças pequenas. As complicações incluem bronquiolite, pneumonia e otite média. O tratamento das infeções por vírus sincicial respiratório baseia-se em cuidados de suporte.

Última atualização: 19 May, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Classificação

Classificação do fluxograma de vírus de rna

Identificação de vírus RNA:
Os vírus podem ser classificados de várias formas. Contudo, a maioria dos vírus possui um genoma formado por DNA ou RNA. Os vírus com genoma de DNA podem ainda ser caracterizados como de cadeia simples ou dupla. Os vírus com envelope são revestidos por uma camada fina de membrana celular, que geralmente é retirada da célula hospedeira. Os vírus sem envelope são apelidados de vírus “nus”. Os vírus com genoma de cadeia simples são vírus de “sentido positivo”, se o genoma for transcrito diretamente em RNA mensageiro (mRNA), que é traduzido em proteínas. Os vírus de “sentido negativo” necessitam da enzima RNA polimerase dependente de RNA para transcrever o seu genoma em RNA mensageiro.

Imagem por Lecturio. Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Características Gerais

Taxonomia e estrutura

  • Género Pneumovírus
  • Família Paramyxoviridae
  • RNA de cadeia simples, linear e de sentido negativo
  • Revestido por envelope
  • A cápside helicoidal grande incorpora a RNA polimerase dependente de RNA no vírus.

Características principais

  • Ausência de hemaglutinina
  • Apresenta 2 serotipos
  • Vírus limitado ao trato respiratório
  • Existem dois subtipos (A e B), presentes nos surtos; o tipo A causa doença mais grave.

Espécies clinicamente relevantes

  • A família Paramyxoviridae é composta por 3 géneros:
    • Paramixovírus, que inclui os vírus da parainfluenza e da parotidite
    • Orthopneumovirus, que inclui o vírus sincicial respiratório (VSR)
    • Morbillivirus, que inclui o vírus do sarampo
  • A família Paramyxoviridae causa entre 30%–40% de todas as infeções respiratórias agudas em bebés e crianças.
Vsr vírus sincicial respiratório

Micrografia eletrónica do vírus sincicial respiratório

Imagem: “Electron micrograph of RSV” por CDC. Licença: Domínio Público

Patogénese

Ciclo de transmissão e replicação

Transmissão:

As gotículas respiratórias de um indivíduo infetado entram em contacto com a mucosa dos olhos, boca ou nariz de outro indivíduo.

Ciclo de replicação:

  • Uma vez que um indivíduo é exposto, há uma fusão das membranas da célula viral e hospedeira.
    • As glicoproteínas da superfície viral F e G controlam a fixação viral e os estadios iniciais da infeção.
    • A nucleocapsíde do vírus e a polimerase entram no citoplasma da célula hospedeira.
  • A RNA polimerase dependente de RNA transcreve o genoma viral em mRNA, que é traduzido por proteínas do hospedeiro.
  • A RNA polimerase sintetiza o antigenoma de sentido positivo, uma cadeia molde complementar usada para construir RNA de sentido negativo.
  • O RNA resultante é integrado na nucleocapsíde e transportado para a membrana plasmática. O empacotamento é completado pela incorporação (“budding”) da membrana plasmática que ao fechar-se liberta os vírus recém-sintetizados.
Schematic image of rsv life cycle

Imagem esquemática do ciclo de vida do vírus sincicial respiratório (VSR)

Imagem por Lecturio.

Reservatórios naturais

  • Humanos
  • Gado
  • Ovelha
  • Cabras

Fisiopatologia

  • A infeção propaga-se no aparelho respiratório, sem disseminação sistémica.
  • O VSR difunde-se por transferência de célula para célula através de pontes intracitoplasmáticas (sincícios) do trato respiratório superior para o inferior (os bronquíolos terminais)
  • A replicação viral lítica causa descamação das células epiteliais → expondo as fibras nervosas nocicetivas → estimulando o reflexo da tosse
  • Ocorre o influxo de PMNs para as vias aéreas → infiltração linfomononuclear do tecido peribronquiolar e aumento da permeabilidade microvascular → edema da submucosa
  • As secreções mucosas aumentam em quantidade e viscosidade → obstrução mucosa generalizada

Doenças Causadas pelo Vírus Sincicial Respiratório

Embora o VSR esteja limitado ao trato respiratório, pode manifestar-se com doenças de gravidade variável, dependendo da idade do indivíduo e do estado do sistema imune.

Doenças causadas

  • Bebés:
    • Bronquiolite aguda
    • Pneumonia
    • Otite média aguda
    • Insuficiência respiratória
  • Adultos imunodeprimidos ou idosos:
    • Pneumonia
    • Exacerbação aguda de doença crónica subjacente (por exemplo, doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), asma, insuficiência cardíaca congestiva)

Epidemiologia

  • Incidência: afeta 4 milhões a 5 milhões de crianças com < 4 anos por ano
    • Doença mais comum em lactentes e crianças pequenas
    • Pico de incidência aos 2-8 meses de vida
  • > 125.000 pacientes com infeção por VSR são hospitalizados anualmente nos Estados Unidos.
  • Nas apresentações ligeiras do VSR, a incidência é igual entre os sexos feminino e masculino.
  • No entanto, os bebés/crianças do sexo masculino são 2 vezes mais propensos a necessitar de hospitalização por infeções por VSR.

Fatores de risco

  • Bebés prematuros
  • Crianças com doença pulmonar crónica
  • Crianças com cardiopatia congénita
  • Baixo peso ao nascimento
  • Tabagismo materno durante a gravidez
  • Sem amamentação

Apresentação clínica

  • Tempo de incubação: 4-5 dias
  • Infeção do trato respiratório superior
    • Tosse
    • Rinorreia
  • Infecção do trato respiratório inferior
    • Taquipneia
    • Tiragem costal e subcostal
    • Cianose
    • Sibilos e estertores
    • Febre
  • Associado a otite média, desidratação e episódios de apneia

Diagnóstico

  • Os estudos laboratoriais habitualmente não estão indicados em pacientes com bom estado geral, hidratados, sem recusa alimentar e que respiram em ar ambiente.
  • Testes de diagnóstico específicos para o VSR
    • Deteção do antigénio (teste no local de atendimento)
    • Técnicas moleculares (PCR)
    • Cultura
  • Deteção do antigénio (“Point of Care Testing” — teste de diagnóstico rápido realizado no atendimento)
  • Técnicas de genética molecular (reação em cadeia da polimerase)
  • Cultura
  • Radiografia do tórax se suspeita de pneumonia
Radiografia de tórax bronquiolite por vírus sincicial respiratório

Radiografia do tórax de uma criança com bronquiolite por vírus sincicial respiratório

Imagem: “Chest X-ray on admission to the emergency room” por Di Nardo M et al. Licença: CC BY 2.0

Tratamento

Nas infeções por VSR, o tratamento baseia-se em cuidados de suporte, incluindo oxigenação e hidratação.

Terapêutica farmacológica:

  • Geralmente não está recomendada pela Academia Americana de Pediatria, exceto em casos selecionados.
  • Nestes casos podem ser administrados beta-agonistas (albuterol), alfa-agonistas (epinefrina) ou corticosteróides
  • Em pacientes com fatores de risco significativos (por exemplo, pacientes transplantados) é utilizada a ribavirina.

Profilaxia: palivizumab, aprovado pela FDA em crianças com alto risco de doença grave por VSR

  • Prematuros nascidos com < 29 semanas, < 1 ano de idade
  • Prematuros nascidos com < 32 semanas, < 1 ano de idade com doença pulmonar crónica
  • No 2º ano de vida, em crianças que necessitam de oxigénio suplementar ou terapêutica de longa duração com corticosteróides ou diuréticos
  • Crianças < 24 meses com cardiopatia congénita significativa ou hipertensão pulmonar

Diagnóstico Diferencial

Bronquiolite aguda: condição respiratória causada pela inflamação dos bronquíolos. A maioria dos casos de bronquiolite aguda é causada pelo VSR. Os pacientes apresentam sintomas respiratórios superiores, como tosse e congestão e, posteriormente, desenvolvem sinais respiratórios inferiores, como dispneia, sibilos, crepitações e hipóxia. O diagnóstico é clínico e o tratamento é direcionado aos cuidados de suporte, hidratação e oxigenação. A doença é autolimitada e tem bom prognóstico com tratamento adequado.

Referências :

  1. Krilov L. (2019). Respiratory syncytial virus infection treatment & management. Emedicine. Retrieved February 6, 2021, from https://emedicine.medscape.com/article/971488-treatment#d8
  2. Welliver RC. (2009). Bronchiolitis and infectious asthma. Feigin RD, Cherry JD, Demmler-Harrison GJ, Kaplan SL, Eds. Textbook of Pediatric Infectious Diseases, 6th ed. Philadelphia: Saunders Elsevier, pp. 277–288.
  3. Centers for Disease Control and Prevention. (2018). Respiratory syncytial virus infection (RSV): trends and surveillance. https://www.cdc.gov/rsv/research/us-surveillance.html
  4. Graham B, Barr F. (2020). Respiratory syncytial virus infection: Treatment. UpToDate. Retrieved Feb 6, 2021, from https://www.uptodate.com/contents/respiratory-syncytial-virus-infection-treatment
  5. Ralson S, et al. (2014). Clinical practice guideline: the diagnosis, management, and prevention of bronchiolitis. Pediatrics 134:e1474–e1502.

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