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Vírus da Febre Amarela

A febre amarela é uma doença causada pelo vírus da febre amarela, um vírus de RNA de cadeia simples e sentido positivo, do género Flavivirus. Humanos e primatas servem como reservatório, e a transmissão ocorre a partir da picada de um mosquito fêmea infetado. A maioria dos dontes apresenta febre e sintomas semelhantes aos da gripe. No caso de doença grave pode haver disfunção multiorgânica com icterícia, disfunção renal, hemorragia, choque e potencialmente a morte. O diagnóstico pode ser confirmado com serologia e PCR. Não há tratamento antivírico, portanto, o tratamento é de suporte. A prevenção inclui a prevenção das picadas de mosquito e a vacinação.

Última atualização: 29 Mar, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Classificação

Classificação do fluxograma de vírus de rna

Identificação do RNA vírico:
Os vírus podem ser classificados de várias formas. No entanto, a maioria destes tem um genoma constituído por ADN ou RNA. Os vírus cujo genoma é de RNA podem ser ainda caracterizados em RNA de cadeia simples ou dupla. Os vírus com invólucro são cobertos por uma fina camada de membrana celular (geralmente da célula hospedeira). Na ausência desta camada, são apelidados de vírus “nus”. Os vírus com genomas de cadeia simples são chamados de vírus de “sentido positivo” se o genoma puder ser diretamente utilizado como RNA mensageiro (mRNA, pela sigla em inglês), que é traduzido em proteínas. Os de “sentido negativo” necessitam da RNA polimerase dependente de RNA, uma enzima vírica, para transcrever o seu genoma em RNA mensageiro.

Imagem por Lecturio. Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Características Gerais e Epidemiologia

Características gerais do vírus da febre amarela

  • Taxonomia:
    • Família: Flaviviridae
    • Género: Flavivirus
  • Vírus de RNA:
    • Cadeia simples
    • Sentido positivo
    • Linear
  • Esférico
  • Simetria icosaédrica
  • Com invólucro
  • Tamanho: 40–60 nm
Partículas do vírus da febre amarela

Imagem de microscopia eletrónica de transmissão de partículas do vírus da febre amarela.
Os virions são esféricos, de formato uniforme e com 40 a 60 nm de diâmetro.

Imagem : “2176” por Erskine Palmer. Licença: Public Domain

Espécies clinicamente relevantes

O vírus da febre amarela tem apenas 1 serotipo, o causador da doença (febre amarela).

Epidemiologia

  • Aproximadamente 200.000 infecções por ano mundialmente
  • Aproximadamente 30.000 mortes por ano
  • Distribuição:
    • América do Sul
    • África Subsariana (cerca de 90% dos casos)

Patogénese

Reservatório

  • Humanos
  • Primatas

Transmissão

Vetores:

  • Mosquitos Aedes
  • Mosquitos Haemagogus

Ciclos de transmissão:

  • Selva (selvático):
    • O ciclo ocorre entre primatas não humanos e mosquitos.
    • Os humanos são infetados quando trabalham ou visitam a selva.
  • Intermédio (savana):
    • O ciclo ocorre entre primatas, humanos e mosquitos.
    • Em quem vive nas regiões de fronteira com a selva, na savana africana
  • Urbano:
    • O ciclo ocorre entre humanos e mosquitos.
    • O vírus é trazido para o ambiente urbano por um humano infetado na selva ou savana.
Alimentação do aedes aegypti

Aedes aegypti a alimentar-se na pele humana

Imagem : “Aedes aegypti bloodfeeding CDC Gathany” por James Gathany. Licença: Public Domain

Ciclo de replicação viral

  • O vírus liga-se às células-alvo através de recetores → endocitose
  • ↓ pH no endossoma → fusão da membrana endossomal com o invólucro vírico → libertação do nucleocapsídeo no citoplasma
  • Desintegração do nucleocapsídeo → replicação do genoma vírico no retículo endoplasmático rugoso
  • As partículas imaturas são processadas no aparelho de Golgi → maturação → libertação como um virion infeccioso

Fisiopatologia

  • O mosquito alimenta-se → inoculação do vírus no hospedeiro
  • A replicação ocorre no local da inoculação (células dendríticas).
  • Disseminação linfática → gânglios regionais
  • A replicação ocorre em macrófagos/monócitos.
  • Disseminação pelos vasos linfáticos → corrente sanguínea → órgãos (principalmente o fígado) e tecidos
  • A replicação vírica em tecidos e órgãos resulta em:
    • Degeneração eosinofílica
    • Apoptose
    • Alterações da gordura
  • Efeitos:
    • Lesão hepática
    • Insuficiência renal
    • Edema cerebral
    • Resposta inflamatória sistémica → choque

Apresentação Clínica

O período de incubação é de 3 a 6 dias. As características clínicas variam de uma doença febril ligeira e autolimitada (a maioria dos casos) a uma doença grave ameaçadora de vida.

Período de infeção

Os sintomas iniciais, listados a seguir, são inespecíficos:

  • Febre e arrepios
  • Cefaleia
  • Fotofobia
  • Mal-estar
  • Mialgias
  • Dor lombar
  • Náuseas
  • Anorexia
  • Tonturas

Período de intoxicação

Após um período de remissão de 48 horas, uma minoria dos doentes desenvolve sintomas de febre amarela grave. Neste período os doentes apresentam febre alta e disfunção multiorgânica.

  • Disfunção hepática: icterícia
  • Disfunção renal: oligúria
  • Hemorragia (pela disfunção hepática e CID – coagulação intravascular disseminada):
    • Epistáxis
    • Melenas
    • Hematémeses (vómito preto)
    • Hematúria
  • Pancreatite:
    • Náuseas e vómitos
    • Dor epigástrica
  • Miocardite
  • Disfunção do SNC (por encefalopatia metabólica, edema cerebral e/ou hemorragia):
    • Delirium
    • Convulsões
    • Coma

Exame objetivo

Os achados dependem da gravidade da doença e da fase da infeção, mas podem incluir:

  • Sinais vitais:
    • Febre
    • Bradicardia associada a febre (sinal de Faget)
    • Hipotensão
  • Oculares:
    • Hiperemia conjuntival
    • Icterícia da esclera
  • Cutâneos:
    • Rubor facial
    • Icterícia
    • Petéquias
    • Equimoses
  • Abdominais:
    • Dor epigástrica
    • Hepatomegalia
  • Renais:
    • Urina escura
    • Hematúria

Diagnóstico e Tratamento

Diagnóstico

Testes específicos:

  • Serologia (ELISA) para pesquisar a presença de anticorpos IgM
  • PCR para deteção do RNA vírico
  • Cultura do vírus
  • Nota: Nunca se deve realizar uma biópsia hepática pelo risco de hemorragia fatal.

Avaliação de apoio ao diagnóstico:

  • Hemograma:
    • ↓ Leucócitos com neutropenia
    • ↓ Plaquetas
  • Testes de função hepática:
    • ↑ AST e ALT
    • ↑ Bilirrubina
  • Estudos da coagulação:
    • ↑ PT e PTT
    • ↓ Fibrinogénio
    • ↑ D-dímeros
  • Avaliação renal:
    • ↑ BUN e creatinina
    • ↑ Albumina e proteínas na urina

Tratamento

Não está disponível um tratamento antivírico para a febre amarela. Este é de suporte.

  • Uma vez que pode ocorrer uma deterioração clínica rápida, é aconselhável o internamento ou tratamento em UCI.
  • Hidratação com fluidos IV
  • Suporte vasopressor se choque
  • Monitorização de:
    • Hipoglicemia
    • CID
    • Disfunção hepática
    • Disfunção renal

Prevenção

  • Prevenção da picada de mosquitos:
    • Repelente de insetos
    • Roupa protetora
    • Mosquiteiro
    • Drenar e evitar água parada
  • A vacinação está recomendada em:
    • Viagens para áreas endémicas
    • Residentes de regiões endémicas

Comparação de Espécies de Flavivírus

Tabela: Comparação de espécies de Flavivirus
Organismo Vírus da febre amarela Vírus da hepatite C Vírus do dengue
Características
  • 1 serotipo
  • 40-60 nm
  • 2 serotipos
  • 55-65 nm
  • 4 serotipos
  • 40-60 nm
Transmissão Mosquito Transmissão pelo sangue Mosquito
Apresentação clínica
  • Febre
  • Sintomas semelhantes à gripe
  • Icterícia
  • Disfunção multiorgânica
  • Hemorragia
  • Choque
  • Assintomática
  • Hepatite
  • Cirrose
  • Carcinoma hepatocelular
  • Febre
  • Sintomas semelhantes à gripe
  • Rubor / erupção cutânea
  • Dor forte
  • Disfunção multiorgânica
  • Hemorragia
  • Choque
Diagnóstico
  • Serologia
  • PCR – reação em cadeia da polimerase
  • Cultura vírica
  • Serologia
  • PCR – reação em cadeia da polimerase
  • Serologia
  • PCR – reação em cadeia da polimerase
  • Teste de antigénio
Tratamento Suporte Antivíricos de ação direta Suporte
Prevenção
  • Medidas para evitar picadas de mosquitos
  • Vacinação
  • Evitar a partilha de agulhas
  • Descarte seguro dos cortoperfurantes e resíduos
  • Rastreio do sangue de dadores
  • Medidas para evitar picadas de mosquitos
  • Vacinação

Diagnóstico Diferencial

  • Malária: doença infeciosa causada por espécies de Plasmodium, transmitida por mosquitos. A malária apresenta-se geralmente com febre, arrepios, diaforese, icterícia, dor abdominal, anemia hemolítica, hepatoesplenomegalia e insuficiência renal. O esfregaço sanguíneo mostra um único anel pleomórfico. Também se podem realizar testes rápidos de antigénio do Plasmodium. O tratamento requer um curso prolongado de vários medicamentos antimaláricos.
  • Febre da Lassa: febre hemorrágica causada pelo vírus Lassa. A maioria das infeções por febre da Lassa são ligeiras e semelhantes à gripe. Alguns doentes apresentam manifestações graves com edema pulmonar, hepatite, hemorragia, edema facial, convulsões, coma e choque. O diagnóstico é confirmado com serologia e PCR. A ribavirina tem sido utilizada com sucesso no tratamento da febre da Lassa.
  • Ébola: febre hemorrágica altamente contagiosa e potencialmente letal causada pelo Ebolavirus. Os doentes apresentam sintomas de febre, mal-estar, náuseas, vómitos e dor abdominal. Estes sintomas podem progredir para hemorragia, falência multiorgânica e choque. O diagnóstico é confirmado por PCR, serologia e microscopia eletrónica do tecido ou do sangue. O tratamento é de suporte.
  • Leptospirose: doença causada por Leptospira interrogans. A maioria dos doentes apresenta uma doença ligeira semelhante à gripe, e as manifestações são bifásicas. Em cerca de 10% das infeções, desenvolve-se uma leptospirose ictero-hemorrágica, manifestando-se com hemorragia, insuficiência renal e icterícia. Uma vez que a cultura bacteriana demora semanas para crescer, outros testes diagnósticos, como serologia e microscopia de campo escuro, são realizados. O tratamento é primariamente com penicilina.
  • Febre recorrente: doença causada por várias espécies da espiroqueta Borrelia, transmitida por vetores. Os doentes apresentam estadios recorrentes de febre, crises e períodos afebris. Pode desenvolver-se meningite, icterícia, CID e miocardite. O diagnóstico baseia-se na história clínica e na visualização das espiroquetas em esfregaços de sangue de gota espessa e fina. O tratamento é com antibióticos, como doxiciclina, penicilina ou ceftriaxona.
  • Febre Q: infeção zoonótica bacteriana causada por Coxiella burnetii. A apresentação clínica da febre Q é variável, mas geralmente é ligeira com sintomas semelhantes aos da gripe. Outras manifestações incluem pneumonia, hepatite, endocardite e meningite assética. É necessário um alto grau de suspeição para fazer o diagnóstico, que é auxiliado pela serologia e PCR. Os antibióticos são a base do tratamento.

Referências

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