Perturbações Factícias

A perturbação factícia, anteriormente chamada de síndrome de Munchausen, caracteriza-se pela falsificação intencional de sintomas para assumir o papel do doente. Os indivíduos podem intencionalmente produzir sintomas numa outra pessoa (frequentemente numa criança ou num idoso), o que é conhecido como perturbação factícia imposta a outro (anteriormente conhecido por Munchausen por procuração). Ao contrário da simulação, a falsificação dos sintomas não está associada a uma recompensa externa. O diagnóstico é clínico e o tratamento baseia-se num confronto sem julgamento.

Última atualização: 4 May, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Epidemiologia e Etiologia

Epidemiologia

  • A prevalência estimada é de 5% em doentes hospitalizados.
  • Mais frequente no sexo masculino do que no sexo feminino
  • A prevalência é maior nos profissionais de saúde e naqueles com maiores níveis de inteligência.
  • Muitas pessoas com perturbações factícias têm doenças psiquiátricas comórbidas subjacentes, como perturbações de personalidade, humor ou abuso de substâncias.

Etiologia

  • Desconhecida
  • Pode estar associada a história de abuso ou de negligência
  • Pensa-se que o internamento e a atenção médica proporcionam o ambiente seguro que falta aos indivíduos.

Apresentação Clínica e Diagnóstico

Apresentação clínica

  • Os sintomas são muito variáveis e dependem do mecanismo de falsificação.
  • Normalmente as apresentações clínicas são dramáticas e bizarras e não pode ser explicadas pelo conhecimento médico convencional.
  • Não há melhoria após intervenções médicas/psicológicas normalmente eficazes
  • Cenários comuns:
    • Episódios recorrentes de hipoglicémia por autoinjecção de insulina
    • Infeções recorrentes de feridas
  • Se falhadas, as perturbações factícias podem levar à morte não intencional.

Diagnóstico

A entrevista psiquiátrica deve incluir, sempre que possível, garantias ou fontes externas de informação.

  • Critérios diagnósticos do DSM-V para a perturbação factícia imposta a si mesmo:
    • Falsificação de sinais ou sintomas físicos ou psicológicos, ou indução de lesão ou doença, associada a fraude identificada.
    • O indivíduo apresenta-se aos outros como doente, incapacitado ou lesionado.
    • O comportamento fraudulento é evidente até mesmo na ausência de recompensas externas óbvias.
    • O comportamento não coexiste com outra perturbação mental.
  • Critérios diagnósticos do DSM-V para a perturbação factícia imposta a outro:
    • Também conhecida como síndrome de Munchausen por procuração
    • O individuo falsifica sinais ou sintomas em outra pessoa e depois apresenta-a a terceiros como doente, incapacitada ou lesionada.
    • O comportamento fraudulento é evidente até mesmo na ausência de recompensas externas óbvias.
    • Nota: Este diagnóstico é para a pessoa que está a falsificar/criar sintomas e não para a pessoa apresentada como doente.
Tabela: Características da perturbação factícia em comparação com diagnósticos diferenciais importantes
Vontade de se submeter a avaliação Comportamento enganador intencional Evidência de recompensa externa
Perturbação de ansiedade de doença +
Perturbação de sintomas somáticos +
Perturbação factícia + +
Simulação + +

Tratamento

  • O tratamento das perturbações factícias deve ser centrado em 3 princípios:
    • Reduzir o risco de morbidade e mortalidade.
    • Tratar doenças psiquiátricas subjacentes.
    • Ter atenção às implicações legais/éticas.
  • Confrontar o individuo de forma não ameaçadora:
    • Evidências por vídeo do comportamento desonesto podem ajudar a facilitar a conversa, visto que os indivíduos podem negar o seu comportamento.
    • Os doentes devem ser encaminhados para psicoterapia.
    • Deve-se ser cuidadoso durante o confronto, pois a relação terapêutica pode sair debilitada.
  • Evitar procedimentos desnecessários.
  • A perturbação factícia imposta a outro justifica o encaminhamento para serviços de proteção à criança ou para o departamento judicial apropriado.
  • O prognóstico é pobre e o tratamento deve ser centrado no controle e não na cura da perturbação.

Diagnóstico Diferencial

  • Perturbação de conversão: presença de sintomas ou défices que afetam a função motora/sensorial sugestiva de uma condição neurológica, mas inexplicável por achados médicos. O diagnóstico é clínico e o tratamento inclui terapia psicológica e física. Ao contrário da perturbação factícia, não há evidência de doença real ou falsificação deliberada dos sintomas.
  • Perturbação de personalidade borderline: a perturbação da personalidade mais conhecida. Caracterizada por instabilidade emocional, impulsividade, padrões distorcidos de pensamento e relações intensas, mas instáveis. O diagnóstico é clínico e o tratamento inclui a psicoterapia, nomeadamente terapia comportamental dialética. Alguém com perturbação de personalidade borderline pode deliberadamente induzir lesões como parte de um comportamento de procura de atenção. Porém, estes doentes não vão tentar enganar os profissionais de saúde.
  • Simulação: comportamento que se caracteriza pela falsificação de sintomas para um ganho secundário externo (por exemplo, evitar a polícia, evitar trabalhar, benefícios por invalidez) A determinação da existência de incentivos externos distingue a simulação da perturbação factícia.

Referências

  1. Sadock, BJ, Sadock, VA, Ruiz, P. (2014). Kaplan and Sadock’s synopsis of psychiatry: Behavioral sciences/clinical psychiatry (11th ed.). Chapter 13, Psychosomatic medicine, pages 465–503. Philadelphia, PA: Lippincott Williams and Wilkins.
  2. Jafferany, M, Khalid, Z, McDonald, KA, Shelley, AJ. (2018). Psychological aspects of factitious disorder. The primary care companion for CNS disorders, 20(1), 17nr02229. https://doi.org/10.4088/PCC.17nr02229

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