Parvovírus B19

O eritroparvovírus de primatas 1 (normalmente referido como parvovírus B19, vírus B19 ou ainda eritrovírus B19) está entre o grupo dos menores vírus de DNA. O parvovírus B19 é da família Parvoviridae e género Erythrovirus. Em humanos imunocompetentes, o parvovírus B19 provoca o clássico eritema infecioso (5ª doença) ou "síndrome da bofetada na bochecha". Podem estar presentes outras manifestações, dependendo do estado imune e hematológico do hospedeiro, devido ao tropismo viral por precursores eritrocitários. O diagnóstico é frequentemente clínico e o tratamento é de suporte.

Última atualização: Apr 27, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Classificação

Fluxograma de classificação de vírus de dna

Identificação de vírus de DNA:

Os vírus podem ser classificados de várias formas. Contudo, a maioria dos vírus possui um genoma formado por DNA ou RNA. Os vírus com genoma de DNA podem ainda ser caracterizados como de cadeia simples ou dupla. Os vírus com envelope são revestidos por uma camada fina de membrana celular, que geralmente é retirada da célula hospedeira. Os vírus sem envelope são apelidados de vírus “nus”. Alguns vírus com envelope traduzem DNA em RNA antes de serem incorporados no genoma da célula hospedeira.

Imagem por Lecturio. Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Características Gerais

Estrutura

  • Família Parvoviridae
  • Género Eritroparvovírus
  • Sem envelope, cápside icosaédrica e genoma de DNA linear de cadeia simples
  • Muito pequeno: aproximadamente 22-24 nm de diâmetro

Principais características

  • Descoberto em 1974
  • Incapaz de propagar vírus em culturas de células
  • Tropismo único por células progenitoras eritroides humanas

Epidemiologia e Patogénese

Epidemiologia

  • A infeção ocorre em todas as idades, mas é mais comum em crianças dos 3 aos 15 anos de idade.
  • Os surtos ocorrem geralmente em escolas e creches e são mais frequentes entre o final do inverno e o início do verão.
  • 90% dos pacientes ≥ 60 anos são seropositivos.

Patogénese

  • Reservatórios:
    • As parvoviroses causam doenças em animais e insetos.
    • O B19 é o único agente patogénico de parvovírus humano.
  • Transmissão:
    • Gotículas respiratórias infetadas
    • Sangue
    • O risco de contágio secundário em membros da família expostos é de 50% e em contactos em sala de aula é de 25%.
  • Ciclo de vida do B19: O vírus liga-se aos recetores da célula hospedeira → endocitose → translocação do genoma para o núcleo hospedeiro → replicação do DNA → transcrição do RNA → montagem da cápside e empacotamento do genoma → lise celular com libertação de viriões maduros
Patogênese do parvovírus b19 humano

Patogénese do parvovírus B19 humano (ciclo de replicação):
1. O vírus liga-se à célula hospedeira.
2. Penetração/endocitose
3. Perda da cápside viral
4. Replicação do DNA
5. Transcrição de DNA em RNA
6. Tradução do RNA em proteína
7. Montagem em unidades virais
8. Lise celular

Imagem por Lecturio. Licença: CC BY-NC-SA 4.0

Fisiopatologia

  • Infeção inicial com B19 no local de entrada (frequentemente no trato respiratório superior) → o vírus propaga-se para as células precursoras eritroides em divisão rápida na medula óssea, que expressam um antigénio sanguíneo P
  • Uma vez dentro da célula hospedeira, o DNA viral entra no núcleo → o vírus é citotóxico para as células → ↓ eritrogénese:
    • O agente B19 requer um recetor de antigénio do sangue P para entrar na célula.
    • Os indivíduos raros que não possuem antigénio P são imunes.

Doenças Causadas pelo Parvovírus B19

Pacientes saudáveis

  • Eritema infecioso (5ª doença): doença bifásica que ocorre principalmente em crianças
    • Fase inicial:
      • Representa a infeção lítica
      • Marcada por sintomas inespecíficos semelhantes aos da gripe
      • ↓ Níveis de hemoglobina
    • Fase imunomediada:
      • Começa 2-3 semanas depois
      • Caracterizada por uma erupção cutânea e artralgias: a “erupção bofetada na bochecha” aparece primeiro no rosto → propaga-se para os membros superiores e inferiores
    • O diagnóstico é normalmente baseado na apresentação clínica; nas apresentações atípicas o diagnóstico pode ser sustentado com o teste de anticorpos IgG e IgM por ELISA.
    • Tratamento: doença autolimitada que requer apenas tratamento de suporte
  • A síndrome de poliartropatia em adultos pode não ser precedida por erupção cutânea.
    • Artralgias agudas e simétricas
    • Envolve sobretudo pés, joelhos, mãos e punhos
    • Sem danos articulares duradouros
    • Doença autolimitada; resolve em 3 semanas
    • Tratamento: sintomático, com analgesia (AINEs) e cuidados de suporte
Quinta doença

“Erupção bofetada na bochecha”:
Esta erupção característica é tipicamente observada no eritema infecioso ou 5ª doença em indivíduos imunocompetentes. A erupção maculopapular é eritematosa e pruriginosa; Segue uma distribuição malar e estende-se frequentemente para as extremidades.

Imagem: “Slapped cheek” de Sandyjameslord. Licença: CC BY-SA 4.0

Doentes imunodeprimidos

Aplasia eritrocitária pura:

  • Não é possível erradicar infeções por parvovírus B19 → aplasia de hemácias e dos seus precursores consequente
  • Pode não haver sinais clássicos de infeção
  • Causa anemia crónica
  • Pode ser fatal
  • Diagnóstico: PCR para detetar o DNA do parvovírus B19.
  • Tratamento:
    • Tem como objetivo minimizar a imunossupressão, se possível (por exemplo, reduzir a dosagem de quimioterapia)
    • Tratamento com imunoglobulina intravenosa (IGIV)
    • Em casos graves, transplante de medula óssea

Pacientes com hemoglobinopatias

A crise aplásica transitória pode ocorrer em indivíduos com hemoglobinopatias (por exemplo, anemia falciforme):

  • A reticulocitopenia transitória (7–10 dias) leva à ↓ dos níveis de hemoglobina.
  • Os sintomas incluem:
    • Febre
    • Mal-estar
    • Prurido
    • Arrepios
    • Artralgias
    • Erupção cutânea maculopapular
  • Anemia
  • Geralmente resolve em semanas
  • Tratamento: transfusão para hemoglobina < 6 g/dl com reticulopenia
Pronormoblasto gigante na medula óssea

Imagem histológica da medula óssea durante uma crise aplásica transitória na infeção por parvovírus B19:
A imagem mostra a citologia da medula óssea. A seta amarela aponta para um pronormoblasto gigante.

Imagem: “Cytology of bone marrow” por Departamento de Medicina Interna, Hospital Feng Yuan, nº 100, Ankang Road, Distrito de Fengyuan, cidade de Taichung, 420, Taiwan. Licença: CC BY 4.0

Mulheres grávidas

  • Hidrópsia fetal:
    • Corresponde à acumulação anormal de líquido nos tecidos moles fetais
    • Os mecanismos ainda não estão totalmente esclarecidos, mas pensa-se que esteja relacionada com a anemia aguda causada pelo vírus: a diminuição do número de hemácias e o aumento da necessidade de volume circulante levam à retenção de líquidos.
    • Associada a aumento do risco de hidrópsia fetal
    • Tratamento: 
      • Transfusão intrauterina
      • Tratamento com IGIV
      • Entubação/suporte ventilatório pós-natal e fluidoterapia
  • Morte fetal no útero:
    • Risco ↑ quanto mais cedo a infeção for contraída durante a gestação.
    • O sistema imune fetal imaturo é menos capaz de reagir à infeção.
  • Anemia congénita:
    • A renovação de hemácias fetal é mais rápida do que na vida pós-natal.
    • Torna o feto mais suscetível à anemia
  • O envolvimento do parvovírus é confirmado através de testes de anticorpos IgG e IgM por ELISA.

Comparação de Erupções Cutâneas Comuns na Infância

Tabela: Comparação de erupções cutâneas comuns na infância
Número Outros nomes para a doença Etiologia Sintomas Descrição
1ª doença
  • Sarampo
  • Sarampo de 14 dias
  • “Morbilli”
Morbillivirus do sarampo
  • Tosse, rinorreia, conjuntivite
  • Manchas de Koplik (máculas branco-azuladas com um halo vermelho) na membrana bucal
  • Erupção
A erupção maculopapular começa na face e atrás das orelhas → estende-se para o tronco / extremidades
2ª doença
  • Febre da escarlatina
  • Escarlatina
Streptococcus pyogenes
  • Língua em morango: membrana branca revestida através da qual se projetam papilas vermelhas e edemaciadas
  • Erupção
  • Erupção maculopapular do tipo “lixa”, que começa no pescoço e região inguinal → estende-se para o tronco/extremidades
  • Áreas escuras e hiperpigmentadas, especialmente em rugas da pele, chamadas linhas de Pastia
3ª doença
  • Rubéola
  • Sarampo alemão
  • Sarampo de 3 dias
Vírus da rubéola
  • Manchas de Forscheimer: Máculas vermelhas pontuais e petéquias sobre o palato mole/úvula.
  • Linfadenopatia generalizada dolorosa
  • Erupção
Máculas discretas no rosto → estendem-se para o pescoço, tronco e membros
4ª doença
  • Síndrome da pele escaldada estafilocócica
  • Doença de Filatow-Dukes
  • Doença de Ritter
  • A existência é controversa
  • Devido às estirpes de Staphylococcus aureus que produzem toxina epidermolítica (esfoliativa)
Erupção
  • Começa com uma erupção eritematosa difusa
  • Sinal de Nikolsky: Tocar e mover o dedo aplicando pressão sobre as lesões cutâneas resulta no desprendimento da pele.
  • Bolhas ou flictenas com fluido → quebram-se e há descamação
5ª doença Eritema infecioso Parvovirus (eritrovirus) B19 Erupção
  • Eritema facial (“bochechas esbofeteadas”) que consiste em pápulas vermelhas nas bochechas
  • O eritema com padrão em rede é único → começa nos membros e estende-se para o tronco/região nadegueira
6ª doença
  • Exantema súbito
  • Roséola infantil
  • Erupção rosa em bebés
  • Febre de 3 dias
Herpesvírus humano 6B ou 7
  • Início súbito de febre alta
  • Erupção
  • A erução começa com a defeverescência (o termo exantema súbito descreve a “surpresa” de um exantema após a resolução da febre).
  • Muitas máculas rosa pálido, em forma de amêndoa, no tronco e pescoço

Referências

  1. Heegaard, E., Brown, K. Human Parvovirus B19. Clin Microbiol Rev. 2002 Jul; 15(3): 485-505.
  2. Cherry, J.D., Schulte, D. J. Human Parvovirus B19. Feigin RD, Cherry JD, Demmler-Harrison GJ, Kaplan SL, eds. Feigin & Cherry’s Textbook of Pediatric Infectious Diseases. 6th ed. Philadelphia, PA: Saunders Elsevier; 2009. Vol 2: 1902-1920.
  3. Cennimo, D. (2019). Parvovirus B19 Infection Differential Diagnoses. Emedicine. Retrieved February 3, 2021, from: https://emedicine.medscape.com/article/961063-differential
  4. Jordan, J. (2019). Clinical manifestations and diagnosis of parvovirus B19 infection. UpToDate. Retrieved February 2, 2021, from: https://www.uptodate.com/contents/clinical-manifestations-and-diagnosis-of-parvovirus-b19-infection
  5. Jordan, J. (2020) Treatment and prevention of parvovirus B19 infection. UpToDate. Retrieved February 2, 2021, from https://www.uptodate.com/contents/treatment-and-prevention-of-parvovirus-b19-infection

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