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Complicações Pós-Parto

O período pós-parto é, normalmente, definido como as primeiras 6–12 semanas após o parto. Durante este intervalo podem ocorrer complicações que resultam das alterações fisiológicas que o corpo sofre para voltar ao estado pré-gestacional, ou das complicações do trabalho de parto e do parto. Estas alterações ocorrem nos sistemas, reprodutivo, urinário, cardiovascular, gastrointestinal e endócrino. Adicionalmente, outras complicações comuns que podem ocorrer durante este período são, a hemorragia pós-parto, a febre pós-parto e as perturbações psiquiátricas. A discussão sobre cada um destes temas encontra-se apresentada em artigos individuais devido à sua complexidade e importância clínica.

Última atualização: 23 May, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Descrição Geral

Período pós-parto

O período pós-parto é, normalmente, definido como o intervalo de tempo após o parto:

  • Começa com o parto do bebé
  • Duração: 6–12 semanas (as opiniões dos especialistas divergem relativamente à altura de término do período pós-parto)

Complicações pós-parto

Durante o período pós-parto, o estado físico do corpo da mãe volta a assemelhar-se ao pré-gestacional. Existem várias complicações que podem ocorrer durante este intervalo, algumas das quais podem causar morbilidade e mortalidade significativas. Algumas das mais importantes incluem:

  • Hemorragia pós-parto
  • Febre pós-parto (normalmente, com origem numa infeção)
  • Perturbações psiquiátricas pós-parto
  • Alterações/complicações no sistema reprodutivo:
    • Involução uterina
    • Lóquios
    • Dor perineal
    • Regresso da ovulação e necessidade de contraceção
  • Sistema urinário:
    • Retenção urinária
    • Incontinencia urinaria
    • Infeções do trato urinário (ITUs)
  • Sistemas cardiovascular e pulmonar:
    • Retorno ao estado pré-gestacional
    • Trombose venosa profunda (TVP) e/ou embolia pulmonar (EP)
    • Cardiomiopatia pós-parto
    • Distúrbios hipertensivos
  • Sistema gastrointestinal:
    • Obstipação
    • Hemorróidas
    • Infeção por Clostridioides difficile/colite fulminante
  • Sistema endócrino:
    • Tiroidite pós-parto
    • Síndrome de Sheehan (hipopituitarismo)
  • Sistema nervoso:
    • Neuropatia
    • Complicações da anestesia neuroaxial
    • Acidentes vasculares cerebrais e convulsões

Resumo das complicações mais importantes

Três das complicações mais importantes são, a hemorragia, a febre e as perturbações psiquiátricas pós-parto; a discussão detalhada sobre cada uma destas encontra-se nas suas próprias páginas, no entanto, o essencial apresenta-se resumido, de forma breve, a seguir.

Hemorragia pós-parto:

  • As principais causas incluem (os 4 Ts):
    • Tónus: atonia uterina (de longe, a causa mais frequente)
    • Tecido: retenção de membranas e/ou fragmentos da placenta
    • Trauma: lacerações hemorrágicas no períneo, vagina e/ou colo do útero; rutura uterina
    • Trombina: coagulopatias (por exemplo, CID, doença de von Willebrand não diagnosticada)
  • Tratamento:
    • Agentes uterotónicos: oxitocina, misoprostol, methergine, hemabate
    • Compressão manual do útero
    • Tamponamento uterino (por exemplo, com o balão de Bakri)
    • Realização cirúrgica de suturas de compressão
    • Histerectomia (última linha)

Febre pós-parto:

  • Principais causas (os 7 Ws):
    • Womb — Útero: endometrite (causa mais frequente, manifesta-se clinicamente com febre + útero doloroso)
    • Wound — Ferida: infeção de ferida cirúrgica ou perineal
    • Woobies — Mamas: mastite
    • Water — Água: ITU
    • Wind — Respiração: atelectasia, pneumonia aspirativa, embolia pulmonar
    • Walking — Caminhar: tromboflebite pélvica séptica e/ou TVP
    • Wonder drugs — Medicamentos milagrosos: febre relacionada com medicamentos
  • Tratamento:
    • Tratar as infeções com antibióticos seguros para a amamentação.
    • O esquema habitualmente utilizado para a endometrite é: gentamicina + clindamicina +/– ampicilina.
    • No caso de feridas infetadas e abcessos, pode ser necessário abrir, irrigar/desbridar e encerrar ou deixar cicatrizar por segunda intenção.
    • No caso de mastite, para além da toma de antibióticos, as mulheres devem continuar a amamentar/extrair o leite (a estase do leite agrava a mastite).

Perturbações psiquiátricas pós-parto:

Tabela: Resumo das doenças psiquiátricas pós-parto (PP)
Blues PP Depressão PP Psicose PP
Epidemiologia 50%–80% das gestações 10%–25% das gestações < 1% das gestações
Sintomas comuns Culpa, choro, sensação de sobrecarga Incapacidade para lidar com a situação, desinteresse por si própria e pelo bebé Alucinações visuais ou auditivas
Início Primeiras 2 semanas pós-parto 2 semanas a 1 ano após o parto Dias a 1 ano após o parto
Tratamento Resolve espontaneamente Psicoterapia, antidepressivos Antipsicóticos
Diagnósticos diferenciais
  • Depressão PP
  • Perturbação depressiva major
  • Perturbação afetiva sazonal
  • Reação aguda ao stress
  • Distimia
  • Blues PP
  • Psicose PP
  • Perturbação depressiva major
  • Perturbação bipolar
  • Distimia
  • Perturbação afetiva sazonal
  • Reação aguda ao stress
  • Hipotiroidismo
  • Anemia
  • Blues PP
  • Depressão PP
  • Psicose aguda
  • Esquizofrenia
  • Delirium
  • Perturbação bipolar
  • Perturbação afetiva sazonal
  • Reação aguda ao stress

Sistema Reprodutivo

Involução uterina

  • Definição: retorno do útero ao seu tamanho pré-gestacional, com início imediatamente após o parto fetal e durante as 6–8 semanas seguintes.
  • Mecanismo:
    • A contração das fibras musculares sobrepostas do miométrio limita o fluxo sanguíneo.
    • A retração do miométrio (característica exclusiva do útero) permite que as fibras musculares mantenham comprimentos mais curtos após contrações sucessivas.
    • Imediatamente após o parto, o útero passa de 1 kg para aproximadamente 60 g.
    • Nas mulheres que amamentam o processo acelerado pela ocitocina
  • Sintomas:
    • Cólicas uterinas, que são normais
    • Às vezes referida como “dores posteriores”
    • Normalmente, não deve ocorrer dor uterina (ou apenas dor ligeira); a presença de dor significativa sugere infeção (por exemplo, endometrite).
  • O atraso na involução pode ocorrer devido a:
    • Bexiga cheia ou preenchimento da ampola retal (atrasam a involução imediata na sala de partos)
    • Infeção uterina
    • Retenção dos produtos da conceção
    • Hematomas
  • Riscos associados ao atraso na involução:
    • Hemorragia pós-parto
    • Infeção

Lóquios

  • Definição: hemorragia normal e secreções vaginais, eliminadas durante as primeiras semanas após o parto
  • Fases:
    • Lóquia rubra (vermelha): corrimento inicial, de coloração vermelha, que contém sangue, tecido endometrial e muco, e que dura, habitualmente, cerca de 1–4 dias
    • Lóquia serosa (rosa, amarela ou castanha clara): aparece a seguir à lóquia rubra e é constituida, maioritariamente, por sangue, muco e leucócitos.
    • Lóquia alba (branca): corrimento que contém, maioritariamente, muco
  • Padrões de hemorragia pós-parto normais:
    • Os lóquios podem durar 10 dias a cerca de 5 semanas após o parto.
    • Normalmente, a hemorragia começa com maior intensidade comparativamente com uma menstruação normal e diminui gradualmente com o tempo (embora, esta seja, frequentemente, irregular e diferente da menstruação à qual a mulher está habituada)
    • Normalmente, 1–3 semanas após o parto, a hemorragia pode aumentar durante cerca de um dia, à medida que os restos da placenta são expulsos.
  • Lóquios anormais:
    • Hemorragia de coloração vermelha que é intensa ou prolongada:
      • A quantidade da hemorragia não deve exceder o preenchimento de um penso durante 1 hora, por ≥ 2 horas consecutivas.
      • Considerar a presença de retenção de produtos de conceção, infeção e subinvolução do útero.
    • O corrimento com odor fétido, especialmente na presença de dor uterina, é sugestivo de infeção.

Dor perineal

  • A dor perineal e vaginal é comum, sendo que pode ser considerada normal caso a sua intensidade seja ligeira a moderada:
    • Deve ser adequadamente tratada com analgésicos.
    • Normalmente, causada por lacerações, episiotomias e/ou edema
  • Outras causas de dor perineal que requerem atenção médica são:
    • Hematomas
    • Deiscência
    • Infeção
  • O períneo deve ser avaliado, de forma delicada, por rotina no pós-parto, habitualmente com uma inspeção visual simples, para excluir a dor relacionada com complicações.
  • Tratamento:
    • Analgésicos:
      • Normalmente, os AINEs e/ou o paracetamol (por exemplo, o Tylenol) são apropriados.
      • Podem ser utilizados narcóticos para a correção de uma laceração significativa.
    • Aplicação de gelo
    • Banhos de assento: mergulhar o períneo em água confortavelmente quente; podem ser adicionados alguns sais de cloreto de magnésio (sais de epsom) → mantém a área limpa e ↑ fluxo de sangue, importante no tratamento
    • Pensos com hamamélis
    • Deambulação para mobilizar o fluido e reduzir o edema
    • Tratar quaisquer complicações (por exemplo, utilizar antibióticos para as infeções).

Contraceção e regresso da ovulação

  • Embora, habitualmente a ovulação permaneça suprimida durante a amamentação, por vários meses, devido ao ↑ dos níveis de prolactina, esta pode reaparecer tão cedo quanto as primeiras 3 semanas pós-parto.
  • É recomendado para todas as mulheres, o repouso pélvico (“nada na vagina”), durante pelo menos 2 semanas após o parto, embora algumas mulheres não esperem tanto tempo para iniciar as relações sexuais.
  • Deve ser discutida a contraceção com todas as mulheres antes de deixarem o hospital.
  • Os métodos de barreira (por exemplo, os preservativos) são eficazes e devem ser considerados nas mulheres que querem evitar a contraceção hormonal.
  • Métodos exclusivamente progestativos:
    • Agentes preferidos no período pós-parto precoce, para prevenir as complicações associadas aos estrogénios
    • A “Mini-pílula” é tipicamente uma pílula com baixa dosagem de noretindrona, frequentemente escolhida por mulheres a amamentarem:
      • Deve ser iniciada 2 semanas após o parto
      • Não se associa a alterações na produção de leite materno
      • Assim que parem de amamentar, para garantir uma melhor eficácia contracetiva, as mulheres devem trocar para uma pílula anticoncecional oral combinada (COC).
    • Outras opções são:
      • Injeções de acetato de medroxiprogesterona (Depo-Provera)
      • Implante subcutâneo de etonogestrel (Nexplanon)
      • Dispositivos anticoncecionais intrauterinos (DIUs): o risco de perfuração uterina é maior quando são inseridos após o parto
  • Métodos que contém estrogénios (pílulas, adesivo, anel vaginal):
    • Se iniciados muito precocemente, podem diminuir a produção de leite
    • Risco ↑ de TVP
    • Devem ser iniciados 4 semanas após o parto
  • Nas mulheres com alto risco de gravidez num curto intervalo, pode ser oferecida a Depo-Provera, o Nexplanon ou a inserção de um DIU, antes da alta hospitalar.

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Sistema Urinário

Descrição geral das complicações do sistema urinário

  • A dilatação dos ureteres e da pelve renal volta ao estado pré-gestacional nas 2–8 semanas após o parto.
  • Embora apresentem edema do trato geniturinário, as mulheres devem conseguir urinar espontaneamente nas 6 horas após o parto vaginal ou após a remoção de uma algália permanente.
  • As complicações frequentes são:
    • Retenção urinária pós-parto
    • Incontinência urinaria
    • ITU

Retenção urinária pós-parto

  • Pode ocorrer devido a:
    • Trauma da bexiga relacionado com o trabalho de parto prolongado
    • Lesão do nervo pudendo durante o parto
    • Atonia vesical
    • Compressão da uretra por edema
  • Diagnóstico:
    • Ausência de micção espontânea nas primeiras 6 horas após o parto vaginal ou após a remoção de uma algália permanente
    • Volumes residuais pós-miccionais (PVRs, pela sigla em inglês) elevados, com volume de urina na bexiga > 150 mL (determinado por cateterismo ou ecografia)
  • Fatores de risco:
    • Anestesia epidural
    • Parto vaginal instrumentado (por exemplo, partos auxiliados por fórceps ou ventosa)
    • Episiotomia
  • Apresentação: pequenos volumes de urina, fluxo lento, aumento da frequência ou urgência urinária, dor vesical, incontinência urinária, sensação de esvaziamento incompleto, ausência de vontade de urinar
  • Tratamento:
    • Algaliação intermitente (por exemplo, a cada 4–6 horas)
    • Normalmente, é autolimitada; na maioria das mulheres resolve dentro de 1 semana

Incontinência urinária

  • Comum no período pós-parto imediato
  • Pode ser incontinência de urgência, esforço ou mista
  • Normalmente, melhora com o passar das semanas, embora possa persistir a longo prazo
  • Causada pela lesão dos nervos, fáscia e/ou musculatura do pavimento pélvico
  • Fatores de risco para incontinência a longo prazo:
    • Parto vaginal (durante a cesariana)
    • Parto vaginal instrumentado, sobretudo com o uso de fórceps
    • Idade materna avançada
    • Recém-nascidos com elevado peso ao nascimento

Infeções do trato urinário

  • Normalmente, resultam da algaliação frequente ou prolongada durante o trabalho de parto
  • Apresenta-se com disúria, urgência e/ou aumento da frequência urinária
  • O diagnóstico é feito através da análise de urina e/ou urocultura
  • O tratamento consiste no uso de antibióticos:
    • Caso a mulher amamente, deve ser escolhido, com cuidado, um antibiótico considerado seguro consoante a idade do lactente (por exemplo, a nitrofurantoína e trimetoprima-sulfametoxazol são, normalmente, evitados no primeiro mês de vida).
    • Monitorizar os sinais sugestivos de pielonefrite.

Sistemas Cardiovascular e Pulmonar

Alterações fisiológicas

  • O volume de sangue ↑ em 50% na gravidez → volta ao normal no pós-parto
  • À medida que ocorre a involução uterina, o sangue que estava nos vasos do útero, volta para a circulação materna (uma forma de “autotransfusão”).
  • Vários dias após o parto, inicia-se a mobilização do fluido→ ocorre um ligeiro ↑ na PA, à medida que o fluido extracelular se desloca para o espaço intravascular
    • A PA deve permanecer dentro do intervalo normal.
    • Segue-se o ↑ da diurese (pode ir até 3 L/dia)
  • ↑ Pré-carga, como consequência do alívio da compressão na veia cava inferior aquando da expulsão fetal.

Doença tromboembólica

A TVP e a EP são causas importantes de morbilidade e mortalidade no periparto. Ainda, a embolia de líquido amniótico (ELA) pode apresentar-se com um quadro semelhante ao da EP.

  • Deve-se suspeitar de EP nas mulheres com:
    • Paragem cardiorespiratória súbita
    • Dispneia aguda
    • Toracalgia pleurítica
    • Hemoptises
    • Tosse
    • Edema unilateral dos membros inferiores (nos casos de TVP)
    • Sinais vitais e oxigenação anormais: ↓ O2, taquicardia, taquipneia
  • Diagnóstico:
    • Ecografia Doppler dos membros inferiores para visualizar TVP
    • TC do tórax para identificar EP
    • Os D-dímeros estão frequentemente elevados na gravidez e no período pós-parto, logo têm menor utilidade.
  • Tratamento:
    • Garantir o ABC (via aérea, ventilação e circulação).
    • Tratar com anticoagulantes.
  • Prevenção:
    • Deambulação precoce
    • Meias de compressão ou dispositivos de compressão sequencial (SCDs, pela sigla em inglês) na cama

Cardiomiopatia pós-parto

  • Definição:
    • Desenvolvimento de insuficiência cardíaca no final da gravidez (normalmente > 36 semanas) ou nos 5 meses após o parto
    • Fração de ejeção do ventrículo esquerdo (VE) < 45%
  • A etiologia não está esclarecida
  • Apresentações clínicas:
    • Dispneia (sobretudo dispneia paroxística noturna)
    • Tosse e/ou hemoptises
    • Ortopneia
    • Edema periférico
  • Diagnóstico:
    • Ecocardiograma a mostrar disfunção sistólica do ventrículo esquerdo (VE)
    • ECG: mostra achados inespecíficos
  • Tratamento:
    • Semelhante ao tratamento normal da insuficiência cardíaca
    • Evitar IECAs/ARAs, dado que são contraindicados na gravidez/amamentação.

Patologia hipertensiva

  • No pós-parto, deve-se monitorizar a PA a todas as mulheres.
  • A pré-eclâmpsia, eclâmpsia e síndrome HELLP (hemólise, enzimas hepáticas elevadas e trombocitopenia na gravidez) podem ocorrer, pela primeira vez, após o parto e são a principal causa de mortalidade periparto.
    • Podem levar a acidente vascular cerebral (AVC), coagulopatias e insuficiência renal e hepática
    • Sintomas principais:
      • Cefaleias
      • Alterações visuais (principalmente escotomas)
      • Dispneia
      • Dor no quadrante superior direito (QSD) ou epigástrica
    • O tratamento é feito com:
      • Infusão de magnésio (profilaxia das convulsões)
      • Fármaco hipotensor (normalmente, o labetalol, a hidralazina ou a nifedipina)
  • Hipertensão gestacional:
    • Deve resolver dentro de 12 semanas após o parto
    • Se a hipertensão persistir → faz o diagnóstico de hipertensão crónica

Sistema Gastrointestinal

Obstipação e/ou hemorroidas

Tanto a obstipação como as hemorroidas, são extremamente frequentes no período pós-parto imediato.

  • A obstipação é causada por:
    • ↓ da motilidade GI
    • Dor perineal
    • Perda de fluidos corporais
  • As hemorroidas desenvolvem-se devido a:
    • ↑ da pressão na vasculatura anal durante a gravidez, causada pela presença do feto
    • Esforço durante o parto
  • Tratamento:
    • Hidratação oral
    • ↑ Fibras (na dieta ou com laxantes formadores de volume, como o psyllium)
    • Laxantes emolientes
    • Esteroides tópicos e/ou pensos com hamamélis para as hemorroidas

Infeção por Clostridioides difficile

Anteriormente conhecido como Clostridium difficile:

  • A colonização por C. difficile pode ocorrer após o tratamento com antibióticos que alteram a flora intestinal normal.
  • Normalmente, os achados incluem:
    • Febre
    • Diarreia profusa
    • Dor e distensão abdominal
    • Hipovolemia
    • Leucocitose marcada
  • Pode resultar em colite fulminante
  • Tratamento:
    • Precauções de contacto
    • Interromper os antibióticos iniciados
    • Fluidoterapia, suporte nutricional e de eletrólitos, devido às perdas gastrointestinais
    • Vancomicina ou fidaxomicina oral (não IV)

Sistema Endócrino

Tiroidite pós-parto

  • Definição: patologia autoimune destrutiva, com presença de anticorpos contra a tiroide, que ocorre no primeiro ano após o parto.
    • Variante da tiroidite autoimune crónica (ou seja, tiroidite de Hashimoto)
    • Prevalência: aproximadamente 8%
  • Apresentação clínica:
    • Hipertiroidismo transitório isolado: fadiga, perda ponderal, palpitações, intolerância ao calor, ansiedade
    • Hipotiroidismo isolado: fadiga, intolerância ao frio, obstipação, pele seca
    • Hipertiroidismo transitório seguido de hipotiroidismo
  • História Natural:
    • “Sequência clássica”: hipertiroidismo que começa 1–4 meses após o parto e dura 2–8 semanas → hipotiroidismo que dura 2 semanas a 6 meses → recuperação
    • A maioria das mulheres recupera espontaneamente dentro de 1 ano
    • Algumas mulheres ficam com hipotiroidismo permanente e/ou bócio.
  • Diagnóstico: estudo da função tiroideia
    • Hormona estimulante da tiroide (TSH, pela sigla em inglês) e T4 livre (estudo de rastreio)
    • No hipertiroidismo, obter também:
      • Anticorpos anti-recetor da TSH séricos
      • Considerar cintigrafia com iodo radioativo (contraindicada em mulheres que amamentam), para diferenciar a tiroidite pós-parto da doença de Graves.
    • No hipotiroidismo, obter também: concentração de T3
  • Tratamento:
    • Monitorização cuidadosa com o estudo da TSH/T4 livre a cada 4–8 semanas; muitas mulheres não necessitam de tratamento.
    • Mulheres com hipertiroidismo sintomático: propranolol
    • Hipotiroidismo sintomático: levotiroxina

Hipopituitarismo (síndrome de Sheehan)

  • Definição: A síndrome de Sheehan consiste no hipopituitarismo (deficiência das hormonas hipofisárias) que ocorre na mulher pós-parto, resultante da isquemia e enfarte da hipófise, causadas por hemorragia obstétrica.
  • Apresentação: ↓ das hormonas hipofisárias
    • ↓ Prolactina: dificuldade na produção de leite e amamentação
    • ↓ Hormona folículo-estimulante (FSH) e hormona luteinizante (LH): amenorreia
    • ↓ TSH: hipotiroidismo
    • ↓ Hormona adrenocorticotrófica (ACTH): insuficiência adrenal
  • Tratamento: tratamento com reposição hormonal (por exemplo, corticosteroides, levotiroxina, estrogénios)

Sistema Nervoso

Neuropatia

  • Normalmente, mononeuropatias que se desenvolvem durante o parto
  • Apresentação clínica: dor, fraqueza muscular e/ou alterações sensitivas, tipicamente nas extremidades inferiores, dependendo do nervo afetado (ver tabela abaixo)
  • Fatores de risco:
    • Macrossomia fetal
    • Bloqueio sensitivo (prejudica o reconhecimento do desconforto)
    • Posição de litotomia/2.º estádio do trabalho de parto (por exemplo, esforços expulsivos) com duração prolongada
  • Tratamento:
    • AINEs para a dor
    • Pode considerar-se o uso de agentes neuropáticos.
    • Fisioterapia
  • Prognóstico: a maioria das mulheres recupera espontaneamente, dentro de alguns dias a meses (tempo médio de recuperação: 8 semanas).
Tabela: Apresentação clínica de neuropatias pós-parto comuns
Nervo afetado Mecanismo de lesão Sintomas
Nervo femoral Esforços expulsivos prolongados com flexão extrema da anca
  • Fraqueza do músculo quadríceps
  • A adução está preservada.
  • Perda sensitiva na região anterior e medial da coxa
Nervo cutâneo femoral lateral Esforços expulsivos prolongados com a flexão extrema da anca
  • Dor na região lateral da anca
  • Dormência/formigamento na região superior externa da coxa
Nervo peroneal
  • Agachamento prolongado
  • Flexão sustentada do joelho
  • Pressão na cabeça do perónio transmitida através da força realizada pelos pés
Pé pendente
Nervo obturador
  • Compressão pela cabeça fetal em movimento descendente ou fórceps
  • Hematoma do pudendo
  • Dor na região medial na coxa
  • Fraqueza do músculo adutor

Complicações da anestesia neuroaxial

  • Lesão nervosa
  • Dor nas costas
  • Cefaleias pós-punção da dura (cefaleias posicionais que agravam em ortostatismo, e que ocorrem dentro de 6–72 horas após a punção da dura)
  • Retenção urinária
  • Sintomas neurológicos transitórios: dor e/ou disestesias nas nádegas e extremidades inferiores
  • Hematoma epidural
  • Infeções:
    • Meningite
    • Abcesso epidural

AVC e convulsão

  • AVC:
    • AVC hemorrágico como emergência hipertensiva relacionada com a pré-eclâmpsia/eclâmpsia
    • AVC isquémico causado por doença tromboembólica
    • Manifesta-se com achados neurológicos focais
    • O tratamento é semelhante ao do AVC em mulheres não grávidas.
  • Convulsões:
    • Associadas à eclâmpsia (consultar a secção anterior sobre as patologias hipertensivas)
    • Tratar com sulfato de magnésio IV.
    • Pode-se utilizar benzodiazepinas IV (normalmente, o diazepam) quando as convulsões não resolvem com o sulfato de magnésio
    • Controlar a hipertensão.

Relevância Clínica e Aconselhamento à Alta

É extremamente importante fornecer informação, de forma adequada e precoce, sobre o que é expectável ocorrer quando a mulher vai para casa após o parto. Isto permite que a mesma identifique complicações severas precocemente e evita que recorra ao médico, sem necessidade, por processos considerados fisiológicos.

Aconselhamento de rotina à alta

Os tópicos importantes a serem abordados são:

  • Quando recorrer ao médico
  • Restrições gerais
  • O que é expetável que ocorra, sobretudo no que diz respeito à dor, hemorragia e regresso ao estado normal
  • Aconselhamento sobre a contraceção

Quando recorrer ao médico

As mulheres devem ser educadas a procurar atendimento médico quando:

  • Febre > 38°C (100,4°F)
  • Toracalgia ou dispneia: é necessário excluir EP, pré-eclâmpsia pós-parto e cardiomiopatia periparto
  • Principais sinais/sintomas de pré-eclâmpsia:
    • Cefaleia
    • Alterações visuais
    • Dispneia
    • Dor no QSD/epigástrica
  • Aumento da hemorragia vaginal (> 1 penso por hora por ≥ 2 horas consecutivas): deve ser avaliada para hemorragia pós-parto
  • Agravamento da dor abdominal e/ou pélvica: necessidade de excluir infeção
  • Incapacidade para urinar (preocupação com a retenção urinária)
  • Náuseas e/ou vómitos severos
  • Sintomas de depressão, pensamentos relacionados com fazer mal a si própria ou ao recém-nascido

Restrições gerais

Normalmente, as mulheres devem ser aconselhadas a:

  • Evitar relações sexuais e/ou a inserção de qualquer coisa na vagina (ou seja, “repouso pélvico”), para terem tempo para recuperar.
  • Evitar levantar pesos (qualquer coisa que exija esforço) até se sentirem confortáveis para o fazer.
  • Evitar conduzir até:
    • Terminar a toma de hipnóticos
    • Se sentirem confortáveis para travar em caso de emergência
    • Normalmente, 2–3 semanas

Referências

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  2. Berens, P. (2021). Overview of the postpartum period: Normal physiology and routine maternal care. In Barss, V.A. (Ed.) UpToDate. Retrieved June 24, 2021, from https://www.uptodate.com/contents/overview-of-the-postpartum-period-normal-physiology-and-routine-maternal-care 
  3. Tsang, W., Lang, R. (2020). Peripartum cardiomyopathy: etiology, clinical manifestations, and diagnosis. In Yeon, S. (Ed.), UpToDate. Retrieved June 24, 2021, from https://www.uptodate.com/contents/peripartum-cardiomyopathy-etiology-clinical-manifestations-and-diagnosis 
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