Amnésia Dissociativa

A amnésia dissociativa é uma perturbação dissociativa caracterizada por lacunas temporais da memória e que geralmente surge em resposta a eventos traumáticos. A amnésia dissociativa pode ser subclassificada como generalizada versus localizada ou contínua versus sistematizada. A forma mais comum é perda de memória para certos eventos traumáticos ou não prazerosos. O tratamento envolve psicoterapia para que as memórias perdidas possam ser recuperadas de uma forma segura.

Última atualização: 3 May, 2022

Responsibilidade editorial: Stanley Oiseth, Lindsay Jones, Evelin Maza

Descrição Geral

Definição

A amnésia dissociativa é uma perturbação da memória potencialmente reversível que afeta principalmente a informação autobiográfica e surge frequentemente após eventos stressantes ou traumáticos.

Tipos de memória

  • Autobiográfica: informações sobre eventos na vida de um indivíduo, incluindo acontecimentos pessoais e o seu impacto cognitivo, emocional e motivacional
  • Semântica: memória de factos, conceitos, objetos, palavras e definições
  • Episódica: memória de eventos específicos
  • Procedimental: memória de como certos procedimentos são realizados

Epidemiologia

  • Prevalência ao longo da vida: cerca de 2%–6%.
  • Maior incidência no sexo feminino
  • Geralmente surge no final da adolescência
  • Comorbilidades:
    • História de abuso de substâncias
    • História de trauma
    • Perturbações do humor
    • Transtorno de conversão

Patogénese

  • Fatores ambientais:
    • Experiências que provocam emoções difíceis de tolerar
    • As emoções são frequentemente desencadeadas por traumas ou traições vindas de alguém em quem o doente confiava.
    • Pensa-se que estes ‘triggers’ influenciam o modo como o evento é lembrado.
  • Fatores genéticos:
    • Genes e fatores ambientais com influência na expressão genética (modelo epigenético)
    • Um evento stressante ou traumático durante a infância (ou até mais tarde na vida) pode desencadear a expressão de uma diátese genética que de outra forma teria sido suprimida.
    • 50% da variabilidade no desenvolvimento de sintomas dissociativos pode ser explicada por fatores genéticos.
  • Fatores neurobiológicos:
    • A região temporal, occipital e do hipocampo estão associadas à memória autobiográfica
    • Se alguma destas regiões cerebrais for afetada, pode levar à dissociação.

Características Diagnósticas e Clínicas

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico e baseado no cumprimento de determinados critérios:

  • Critérios:
    • Incapacidade de recordar informações autobiográficas importantes, facto incompatível com o esquecimento normal
    • Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou profissional.
  • Exclusão:
    • A perturbação não pode ser atribuível aos efeitos fisiológicos do uso de substâncias nem a outra condição neurológica/médica
    • A perturbação não é secundária a outras doenças psiquiátricas.

Características clínicas

  • Apresentação clássica:
    • Sintomas dissociativos no caso de traumas extremos
    • O doente é incapaz de se lembrar:
      • De quem é
      • De onde é que esteve
      • Do que fez num determinado momento
  • Tipos de amnésia dissociativa:
    • Amnésia localizada: incapacidade de recordar eventos durante um período limitado ou evento específico
    • Amnésia seletiva: incapacidade de recordar partes de um evento
    • Sistematizada: incapacidade de recordar certas categorias de memória (por exemplo, incapacidade de recordar a vida durante a 3ª classe, mas capaz de se lembrar da escola em geral)
    • Contínua: incapacidade de lembrar eventos sucessivos à medida que ocorrem (amnésia dissociativa anterógrada).
    • Amnésia generalizada: perda completa das memórias da história de vida da pessoa, geralmente acompanhada com esquecimento da própria identidade.

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Tratamento

  • O objetivo é restaurar as memórias perdidas dos doentes de uma forma segura: após o início da terapia, o risco de suicídio está aumentado pela lembrança dos eventos traumáticos ou memórias.
  • Psicoterapia: tenta identificar distorções cognitivas com base na história de trauma do doente:
    • Terapia de 1ª linha
    • Exemplos:
      • Terapia cognitiva
      • Hipnose e hipnoterapia
      • Terapia de grupo
  • Farmacoterapia:
    • Não indicada a menos que para o tratamento de comorbilidades (por exemplo, tratamento de depressão com antidepressivos)
    • Entrevistas clínicas com recurso a fármacos:
      • Os agentes hipnóticos (barbitúricos ou benzodiazepínicos) podem ajudar na recuperação de certas memórias perdidas.
      • As memórias recuperadas são então reprocessadas quando o doente se encontra no seu estado normal de consciência.

Diagnóstico Diferencial

  • Dissociação não patológica: sentimentos de dissociação experimentados nas atividades quotidianas (por exemplo, conduzir até ao destino sem recordar a viagem). A dissociação não patológica distingue-se da amnésia dissociativa porque na dissociação não patológica o individuo não experimenta sentimentos de angústia ou prejuízo no funcionamento.
  • Amnésia global transitória: forma de amnésia anterrógrada temporária de início súbito, muitas vezes desencadeada por eventos altamente stressantes. Esta situação clínica está associada à desorientação, mas os doentes não perdem a consciência de si próprios. Os sintomas resolvem-se sem qualquer intervenção e sem défices neurológicos duradouros. As características que distinguem este diagnóstico da amnésia dissociativa é a idade de início (geralmente ≥ 50 anos para amnésia global transitória), bem como a preservação das memórias pessoais.
  • Demência: grupo de perturbações crónicas causadas por doença ou lesão cerebral, marcadas por perda de memória, mudanças de personalidade e alterações do raciocínio. Um doente com demência fica perturbado com as suas perdas de memória e tenta lembrar-se, em contraste com o doente com amnésia dissociativa que não está perturbado nem se tenta lembrar. A demência é prevalente em populações muito mais velhas do que aquelas com amnésia dissociativa.
  • Perturbação dissociativa de identidade (PDI): é uma condição clínica marcada pela presença de ≥ 2 identidades/ personalidades distintas num doente, sendo que cada personalidade tem as suas próprias memórias. O doente alterna rapidamente entre personalidades, especialmente em situações de stress. A perturbação dissociativa de identidade está associada a histórias de trauma/abuso infantil tal como acontece com amnésia dissociativa. Ao contrário da amnésia dissociativa, os défices de memória na PDI incluem amnésia para eventos diários normais ou apagões recorrentes.
  • Perturbação aguda de stress: reações de stress agudo após a exposição de um indivíduo a um evento traumático. Os sintomas duram > 3 dias, mas < 1 mês e incluem revivências do evento com flashbacks ou pesadelos, evicção de “lembranças” do evento, irritabilidade, hiperatividade e défice de memória e de concentração. Quando o doente apresenta amnésia que se estende para além do período do evento, pode ser feito o diagnóstico de amnésia dissociativa.

Referências

  1. Sadock BJ, Sadock VA, Ruiz P. (2014). Dissociative disorders. Chapter 12 of Kaplan and Sadock’s Synopsis of Psychiatry: Behavioral Sciences/Clinical Psychiatry. Philadelphia: Lippincott Williams and Wilkins, pp. 451–464.
  2. Spiegel D, Loewenstein RJ, Lewis-Fernández R, Sar V, Simeon D, Vermetten E, Cardeña E, Dell PF. (2011). Dissociative disorders in DSM-5. Depress Anxiety 28:824–52. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21910187/
  3. Waller NG, Ross CA. (1997). The prevalence and biometric structure of pathological dissociation in the general population: taxometric and behavior genetic findings. J Abnorm Psychol. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9358680/
  4. Rapaport D. (1942). Emotions and Memory. Baltimore: Lippincott Williams and Wilkins.

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