Como Assegurar Aprendizagens Duradouras em Educação Médica

Como Assegurar Aprendizagens Duradouras em Educação Médica

May 12, 2021

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Peter Horneffer, M.D., Satria Nur Sya’ban, M.D., Adonis Wazir, M.D.

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As plataformas digitais podem ser parte integrante de estratégias de educação baseadas em evidências, promovendo aprendizagens duradouras e a construção de conhecimento efetivo.
Aprendizagens-Duradouras

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O que é a Aprendizagem Duradoura?

A aprendizagem duradoura, ou construção de conhecimento efetivo, refere-se à retenção do conhecimento durante um longo período de tempo. Ainda que a promoção da retenção duradoura do conhecimento seja o resultado desejável em vários métodos de ensino, alguns deles são mais apropriados do que outros no atingimento desse objetivo.

O sucesso na implementação dos métodos de aprendizagem duradoura  é melhor conseguido através da integração de métodos de ensino baseados em evidências e que promovem a aquisição, retenção e difusão do conhecimento médico. A implementação destes métodos nas estratégias de ensino-aprendizagem das escolas médicas pode promover resultados de aprendizagem que conduzem a maior retenção a longo prazo e melhor domínio de conceitos-chave.

O papel das escolas médicas e docentes deve mudar, tal como as ferramentas que estes utilizam.

A educação médica é uma área em constante evolução. Embora a medicina baseada em evidências seja um conceito consensual e tido como padrão global há já bastante tempo, só recentemente a educação médica baseada em evidências tem ganhado espaço na opinião pública. A incorporação das mais recentes conclusões de investigação da ciência da aprendizagem na educação médica é importante, tanto nas ciências básicas como na aprendizagem clínica, dado que esta última causa um impacto direto nos cuidados prestados à população.

Mais ainda, tendo em conta os vários desafios que as escolas médicas de todo o mundo enfrentam, é imperativo promover a aprendizagem duradoura nos estudantes de medicina. Assumem-se como desafios:

  • a exigência colocada nos docentes devido ao crescimento exponencial de conhecimento médico que é necessário transmitir aos estudantes;
  • a exigência colocada nos estudantes como a gestão eficiente do conhecimento médico adquirido durante o curso (que pode variar entre 4 a 8 anos, dependendo do país);
  • a capacidade dos estudantes conseguirem obter, reter e aplicar o conhecimento adquirido de forma duradoura. Em parte, tal se deve à difusão de metodologias de ensino-aprendizagem subótimas.

A mudança para métodos de ensino baseados em evidências requer alterações no papel dos docentes em educação médica. O papel do paciente em educação médica move-se no sentido de um papel mais de curador, criador, moderador de conteúdo “online” e de tutor ao invés de um papel em que o educador é o principal canal de transferência de informação, como acontece nos métodos tradicionais de ensino-aprendizagem utilizados para dar aulas.

Adicionalmente, o aumento de estudantes de medicina que se encontram cada vez mais habituados ao cenário digital, aliado às novas descobertas e conhecimento, apontam para a adoção das plataformas digitais como o caminho a seguir. Estas plataformas permitem a aplicação de metodologias de ensino baseadas em evidências, que promovem a aprendizagem duradoura e que auxiliam os estudantes de medicina na aquisição das ferramentas necessárias ao exercício da sua profissão.

A educação médica necessita de acompanhar o ritmo das novas descobertas e conhecimento.

Por que é que é mais desafiante estudar medicina nesta era?

Em 1950, o conhecimento médico duplicava, aproximadamente, a cada 50 anos; em 1980, duplicava a cada 7 anos. Em 2010, a cada 3,5 anos. Hoje em dia, o conhecimento médico duplica aproximadamente a cada 70 dias (1). Devido a este crescimento exponencial da quantidade de conhecimento que os estudantes de medicina devem aprender e reter, corre-se o risco de estarmos perante uma “sobrecarga cognitiva”, o que pode afetar negativamente a aprendizagem. (2)

Tempo de Duplicação do Conhecimento da Área de Medicina(1)

Conhecimento-da-área-de-medicina

Estudar medicina é uma maratona, não um sprint

O curso de medicina dura tipicamente entre 4 a 8 anos, o que significa que a quantidade de conhecimento que os estudantes de medicina necessitam de aprender duplica múltiplas vezes antes de terminarem o curso. Durante este período, os estudantes de medicina têm que reter informação relacionada com as ciências básicas e saber aplicá-la em contexto clínico. Logo, é crítica a promoção da retenção de conhecimento efetivo para que os estudantes se tornem profissionais de saúde competentes. Os desafios inerentes à retenção de conhecimento efetivo ao nível do currículo médico (entre outros) foram extensivamente discutidos e descritos na literatura. (3,4,5,6)

Os estudantes de Medicina utilizam métodos de estudo tradicionais, contudo ineficientes.

A ocupação principal dos estudantes de medicina é aprender; no entanto, muitos deles utilizam métodos de ensino-aprendizagem longe de se poderem considerar ótimos, tais como a aprendizagem em massa (ou “cramming”) (7,8). A crença popular de que a retenção de informação a longo prazo pode ser adquirida através de metodologias de aprendizagem em massa faz com que os estudantes recorram a esta técnica de estudo ineficaz. Ainda que a aprendizagem em massa dê aos estudantes a sensação de familiaridade ou até domínio da matéria (8), é fato que essa informação é rapidamente esquecida, tal como demonstrado pela curva do esquecimento de Ebbinghaus. (9,10)

Representação da Curva do Esquecimento de Ebbinghaus(10)

Retenção-ebbinghaus-forgetting-curve

Acompanhar o ritmo das novas descobertas e conhecimento requer uma nova abordagem à educação médica

Ser um bom educador é mais do que ser um bom clínico

As metodologias de ensino utilizadas nas escolas médicas e pelos docentes podem desempenhar um papel essencial na promoção de técnicas de ensino para retenção de aprendizagens duradouras. Métodos pré-definidos na educação médica, como as aulas tradicionais (11), ainda dominam o ensino, mesmo sendo ineficientes (12,13). Simultaneamente, só raramente os docentes têm formação em design de instrução ou desenvolvem as suas capacidades de ensino de forma regular (14). Assim, ser um bom docente requer um esforço adicional ao de ser um bom profissional de saúde na abordagem clínica.

Novos métodos de ensino “online” requerem outras competências por parte dos docentes de educação médica.

O papel dos docentes de educação médica tem vindo a alterar-se gradualmente com o aumento da prevalência de metodologias de ensino como o “problem-based learning” (PBL) e “team-based learning”, entre outros. O surgimento da pandemia COVID-19 em 2020 acelerou esta alteração. O paradigma vivido atualmente continua a acelerar a transição de métodos de ensino tradicionais para abordagens mais digitais. Tal se traduz na necessidade de novas competências por parte dos docentes de educação médica:

  • curadores de conteúdo, que escolhem e recomendam o conteúdo baseado em evidências mais adequado para os respetivos estudantes, tendo em conta o ponto de formação em que estão;
  • criadores de conteúdo, que adaptam as suas experiências clínicas e ensino clínico à cabeceira do doente a diferentes plataformas (na forma de “tweets” e mensagens curtas);
  • moderadores de conteúdo, que transformam as conferências ao vivo em alternativas digitais (“webinars”, aulas, PBL, tutoriais online) ao tornarem-se exímios no domínio das ferramentas digitais e peritos na gestão de discussões “online”.

Estes novos papéis dos docentes de educação médica representam novos desafios quando em comparação com os docentes que não recorrem ao “online”.

A Evolução do Papel dos Educadores Médicos(15)

Docentes-de-educação-médica

O papel do tutor será essencial na era pós-pandemia

O papel mais vasto de um docente de educação médica enquanto tutor, ao invés de palestrante, ganhou terreno na era pré-pandemia e deverá continuar a ganhar relevância na era pós-pandemia (16). Ser tutor é ser um guia ao lado do estudante, mapeando o conhecimento para que este possa explorar tópicos de forma independente e ativa, ao invés de alguém que apenas debita matéria do palco. Ao guiar e capacitar os estudantes em matérias e técnicas de ensino validadas pela ciência da aprendizagem e dirigidas às necessidades dos mesmos, os docentes de educação médica utilizam o seu tempo de forma mais eficiente. Adicionalmente, ao potenciar a utilização de ferramentas digitais, os docentes permitem que os estudantes acedam a novos materiais direcionados às respetivas necessidades individuais e ao seu próprio ritmo (18,19).

Educação Médica baseada em evidências é o caminho a seguir

A implementação de estratégias da ciência da aprendizagem é essencial

O raciocínio clínico e o pensamento clínico são construídos tendo por base o conhecimento que os estudantes adquirem nos primeiros anos do curso de medicina. Logo, a não retenção do conhecimento durante estes primeiros anos constitui um desafio na área da educação, refletindo-se na formação dos estudantes e jovens médicos (20).

A abordagem a este desafio pode ser feita recorrendo à implementação de teorias de aprendizagem e ciências cognitivas baseadas em evidências na construção das metodologias de ensino e avaliação das escolas médicas.

Estas estratégias de ensino baseadas em evidências são mais eficazes quando aplicadas em conjunto:

  • Recuperação espaçada
  • Aprendizagem espaçada
  • Prática intercalada
  • Codificação dual
  • Exemplos concretos
  • Metacognição
  • Elaboração
  • Produção

A maioria destas técnicas de aprendizagem baseadas em evidências podem ser implementadas através do recurso a plataformas digitais, auxiliando no aumento da aquisição de conhecimento e da capacidade de retenção dos estudantes de medicina, sem comprometer outros modelos de ensino-aprendizagem, essenciais no percurso clínico dos estudantes, que os tornam em bons profissionais de saúde.

As plataformas digitais surgiram para responder a novos desafios

A constante evolução do panorama de conhecimento global, aliado a uma nova geração de estudantes nativos digitais, culmina na necessidade de adoção de plataformas digitais, como a Lecturio, enquanto resposta ao crescimento acelerado do conhecimento médico e consequente necessidade de retenção eficaz desse conhecimento. As plataformas de aprendizagem digitais fornecem aos estudantes de medicina ferramentas efetivas que possibilitam o acesso, a aquisição e a retenção de um panorama de conhecimento em constante evolução, permitindo que tais estudantes “aprendam o que quiserem, de qualquer pessoa, em qualquer altura” (21,22).

Authors

Peter Horneffer, M.D
Executive Dean, All American Institute of Medical Sciences in Jamaica; Director of Medical Education, Lecturio

Dr. Horneffer attended Johns Hopkins for medical school and residency and practiced medicine as a cardiac surgeon in Maryland, USA. In mid-career, he was asked to help bring medical education to the underserved in the Pacific area. He accepted the position as Dean of a medical school, based in Independent Samoa, which he led to become the first accredited school in the world to use an entirely online didactic curriculum to educate medical students simultaneously on multiple continents. Today he is helping evolve medical education by serving as Executive Dean for a small, private, government-chartered Jamaican medical school (AAIMS) to improve teaching and train physicians for an underserved part of the country. At Lecturio, he serves as Director of Medical Education, helping shape its innovative learning-science-based offering, which is used by medical students and schools around the world.

Satria Nur Sya’ban, M.D.
Junior Doctor, Indonesia; Medical Education Consultant, Lecturio

Satria Nur Sya’ban is a junior doctor from Indonesia who graduated from Universitas Airlangga. While a student, he served as the president of CIMSA, a national medical student NGO, working on a diverse range of issues that included medical education and curriculum advocacy by medical students. Before graduating, he took two gap years to serve as a Regional Director, and subsequently as Vice-President, of the International Federation of Medical Students’ Associations (IFMSA)*, working on and developing various initiatives to better empower medical student organizations to make a change at the national level. At Lecturio, he serves as a Medical Education Consultant, supporting Lecturio in developing and maintaining partnerships with student organizations and universities in Asia, as well as providing counsel on how Lecturio can fit in existing teaching models and benefit students’ learning experience.

*IFMSA has been one of the leading global health organizations worldwide since 1951, representing over 1.3 million medical students as members spanning over 123 countries.

Adonis Wazir, M.D.
Junior Doctor, Medical Education Consultant, Lecturio

Adonis is a junior doctor from Lebanon who graduated from the University of Balamand. He was a research fellow at the Department of Emergency Medicine at the American University of Beirut Medical Center and has worked with the World Health Organization Regional Office of the Eastern Mediterranean. During his studies, Adonis served as the president of the Lebanese Medical Students’ International Committee (LeMSIC), a national medical student organization in Lebanon, and moved on to serve as the Regional Director of the Eastern Mediterranean Region of the IFMSA*. Among his roles as Regional Director, he focused on medical education advocacy, oversaw collaborations with external partners, and undertook several medical education projects and initiatives around the region. As a Medical Education Consultant at Lecturio, he advises the Lecturio team on how the platform can fit in existing teaching models and benefit students’ learning experience, develops and maintains partnerships with student organizations and universities in the MENA region, and conducts research on learning science and evidence-based strategies.

*IFMSA has been one of the leading global health organizations worldwide since 1951, representing over 1.3 million medical students as members spanning over 123 countries.

References

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  2. Mayer RE, Moreno R. Nine Ways to Reduce Cognitive Load in Multimedia Learning. Educ Psychol. 2003 Mar;38(1):43–52.
  3. Weggemans MM, Custers EJFM, ten Cate OThJ. Unprepared Retesting of First Year Knowledge: How Much Do Second Year Medical Students Remember? Med Sci Educ. 2017 Dec 1;27(4):597–605
  4. Schneid SD, Pashler H, Armour C. How much basic science content do second-year medical students remember from their first year? Med Teach. 2019 Feb 1;41(2):231–3.
  5. Custers EJFM, Cate OTJ ten. Very long-term retention of basic science knowledge in doctors after graduation. Med Educ. 2011;45(4):422–30.
  6. Simanton E, Hansen L. Long-term retention of information across the undergraduate medical school curriculum. S D Med J S D State Med Assoc. 2012 Jul;65(7):261–3.
  7. Bickerdike A, O’Deasmhunaigh C, O’Flynn S, O’Tuathaigh C. Learning strategies, study habits and social networking activity of undergraduate medical students. Int J Med Educ. 2016 Jul 17;7:230–6.
  8. Brown P, Roediger H, McDaniel M. Make it Stick. The Belknap Press of Harvard University Press; 2014.
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  15. Minter DJ, Geha R, Manesh R, Dhaliwal G. The Future Comes Early for Medical Educators. J Gen Intern Med [Internet]. 2020 Sep 1 [cited 2021 Jan 6]; Available from: https://doi.org/10.1007/s11606-020-06128-y
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